Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.


mútuo



2.10.08




Capítulo 22
(Daniel de Araujo Barbosa)



Mais uma vez essa sensação ruim volta. Eu sou o cara das coisas pela metade. No começo é sempre aquele gosto do novo na boca, aquela euforia. Depois tudo se desmorona novamente, sem motivo. Simplesmente desmorona. Perde o gosto. Foi assim na escola, na faculdade, nos estágios, nos empregos, nas amizades, nos namoros, nas verdades absolutas. Na escola as vezes algum professor conseguia acender uma luz, por alguns dias, com um assunto interessante, mas logo logo, iria perder o sabor e tudo voltaria a ser massante. Olhares para o relógio contando as horas para sumir dali, tentativas de fuga, suor frio, sentimento de estar desperdiçando o melhor da vida. Pensamento recorrente. Poderia estar lendo algo descente, estudando algo interessante, não a merda do quadrado do cateto da hipotenusa. Algum desses magos, tipo Alester Crowler, sei lá, disse que todo conhecimento que adquirimos na vida, servirá como moeda de troca no dia do juízo final. Imagina só a cena: dia do juízo final, o mundo todo pegando fogo, demônios e anjos correndo nas ruas, as sete trombetas tocando, Deus perguntando aos incaltos: Você sabe recitar o verbo “admoestar” no presente do imperfeito? Não? Então vá para o inferno. Nessa base.

É que ando tenho sonhos estranhos, taquicardias, suores frios, dormindo mal. Outro dia sonhei, ou melhor, acho que estava delirante meio acordado, meio dormindo, sobre algo do meu trabalho que eu tinha que terminar, eu tinha que saber daquilo, manjar do assunto, e vinha um colega e fazia antes de mim, algo assim, daí isso foi a noite toda. Freud diria: desejo de mostrar serviço. Ou algo do tipo. Na verdade ando meio tenso no trampo, se mostro muito serviço parece que sou um serviçal que se subordina a tudo, que não tem outra escolha a não ser estar ali. Se me mostro mais light, parece que não estou nem ai prá nada. Talvez daí venha o sonho. O desejo de ir embora. A necessidade de respostas.

Uma válvula de escape é do que preciso. Músicas, livros, filmes, quadrinhos, comida, bebida, drogas, televisão , rádio, hobbies,etc. Tenho válvulas que sempre voltam: a pintura, a leitura, a escrita, a música torta. Alguns preferem chamar de arte, eu chamo de muleta, encosto, murada, apoio, norte, sentido para uma vida cinza.

Mas voltando ao assunto sobre fazer as coisas pela metade, tomo como exemplo a faculdade. Queria pacas curso Artes plásticas, tinha sonhos como o curso, imaginava mil coisas, que conheceria pessoas legais, etc. Ledo engano. Lembro como se fosse hoje o primeiro dia de aula, eu com meu caderninho debaixo do braço, deu a hora da primeira aula, vou para a sala e o professor manda a realidade na minha cara:
-Você gosta mesmo de arte, né cara? Na primeira semana de aula quase ninguém vem na faculdade.

Putz, como assim? Porque?Saberia alguns meses depois porque. Porque o curso é uma merda, nos prepara para sermos pintores de merda, ou professores de futuros pintores de merda, ou não ser nada. Fazer o curso por fazer, ter o diploma, e ir fazer outra coisa. Resumindo: perda de tempo. A cor foi perdendo aos poucos, no final do primeiro ano de faculdade já estava no piloto automático, fazendo as coisas apulso, só para passar, ter minha nota e ir embora. A arte não estava ali dentro, estava na rua, nos carros, nos edifícios, nos shoppings, mas não estava ali , dentro da Escola de Belas Artes. Ali estava uma simulação do que pode ser arte, uma demostração, não a própria arte.
Mas uma vez eu queria ir embora, sem saber para onde. Andava a esmo, cansava, andava de novo, em busca de não sei o que. Dobrando mais uma esquina dentro da noite suja da cidade fedorenta. Andando nos bairros onde o carnaval não acontece, longe do centro. Andando em shoppings doentes, paredes doentes, prenhes de desafeto, reclamando atenção pelos dutos de ventilação. Andando em ônibus ranzinzas, em livrarias coloridas, constelações me mostrando que a aventura não mora aqui, é feita de letras negras sobre papel branco. Livrarias ensebadas mantidas por homens sonhadores que estudaram pouco ou não tem condições de manter um bar ou uma vídeo-locadora. Livros são como flores nascendo no asfalto. Não que sejam reais, é como naquele dia que fugi da escola como um detento, como uma cara que todos tinham medo na sala, só porque não estava no clima de encarar horas e mais horas de abstrações e teorias sem sentido. Por isso eu nado a esmo. Os anos vão passando, os dias derretendo em frente aos meus olhos, e não percebo o que estou perdendo. Perdendo dentes, Perdendo pelos, Perdendo o que nunca poderei ser. Perdendo quem nunca fui ou poderia ter sido.



.

arquivo morto


Livro sendo escrito a duas mãos - claro, a pessoa só escreve com uma das mãos - por Marcio de Almeida Bueno e Daniel Barbosa. Ambos são militantes do underground e da contracultura desde o final dos anos 80, e há cerca de uma década fazem trabalhos conjuntos - poesia, composições musicais, histórias em quadrinhos, fanzines - à distância, já que Marcio mora no RS e Daniel na Bahia. ( www.falenciafraudulenta.hpg.com.br ) ( www.roquetriste.blogspot.com ) ( danielbarbosa.blogspot.com )