Capítulo 21
(Marcio de Almeida Bueno)
Como sempre acontece, eu chego ao fundo do poço - e eu realmente consigo, não é aquele fundo do poço literário, romântico, nem o esquema emo do Orkut. Nada de caras e bocas, maquiagem, som gótico, lágrimas olhando para a lua, ou as paredes do banheiro construindo um cenário charmoso para uma fotografia. Nenhuma inspiração para uma canção suficientemente abrangente, que mexa em cada uma das pessoas que ouve, nem para um texto que no século seguinte seja lido por professores diante de uma classe de alunos bocejantes - alguns prestando atenção, nem um filme blockbuster ou cult, ou uma grande sacada que me manterá em um escritório de publicidade com vista panorâmica da cidade. Este momento é íntimo mas não pode ser compartilhado. É como se sujar sem querer na própria merda, algo que lamentamos e rapidamente resolvemos, e fazemos questão de esquecer o mais breve possível, e enquanto os outros almoçam, tomam cafezinho ou atendem telefone nos lembramos do cheiro, do susto de ver o dedo sujo. Sem poder comentar nada. Como eu comento agora.
O fato é que eu novamente quero reavaliar a minha vida, mudar os pilares daquilo que considero problema, do que está me atrapalhando e apenas me fazendo sofrer - não o prazer masoquista, o glamour da auto-destruição, mas o sofrimento nu, solitário, madrugada a dentro, com suor na testa e mau-cheiro corporal. Sofrimento do desespero, de acordar no meio da madrugada e achar que algo existe de sobrenatural, e está pairando no corredor, ou o sofrimento do remorso, do acúmulo de louça na cozinha, do atraso da ida ao dentista, do medo que o pau não suba nunca mais, que as pessoas virem a cara para mim, na rua - "não lhe dê atenção, ele é louco!". E que não me permite sequer um aproveitamente posterior, como inspiração para um riff de guitarra ou um poema que vai ser a pedra fundamental de uma trepada com alguma garota 'sensível'.
Imediatamente eu comecei a descartar as companhias femininas atuais. Mulheres que eu vejo e me apaixono, já imagino a conversa incial se transformando em uma cumplicidade de vida - amizade, apoio mútuo, confiança total, entrega, costelas abertas exibindo um coração vermelho e pulsante, respingando sangue brilhoso e grosso, amor em formato de desfile com bandeirinhas agitadas no ar, sexo resumindo a unidade perfeita - niágaras de esperma em cada orgasmo, constrangendo os vizinhos.
Mas, na real, eu me apaixono e a pessoa sequer fica sabendo, pois sou apenas, e tão somente, um cara tagarela, talvez até 'alugue os ouvidos', enquanto sonho longe, e acho que aquela que me escuta está sendo devidamente encantada, um canto-de-sereia invertido. O resultado é me ver sempre solitário, dobrando eternas esquinas nesta cidade, mãos nos bolsos da calça jeans, sem sequer ouvir um sonzinho, pois meu walkman - de fita cassete, registre-se - caiu no chão e teve que ir para o lixo. Era um bom toca-fitas Sony preto, muito AC/DC me ajudou a superar as épocas ruins da vida, o companheiro era uma caixinha preta com botões e fios em direção aos meus ouvidos. Volta e meia eu parava de usar, porque estava com chiado na audição. Grande 'Back In Black'... parecia que injetava algum ânimo no meu sistema linfático, no meu pâncreas, ou parecido, com saída pela uretra. E 'ela' nem sabia que era homenageada com uma ereção, masturbação e gozo cósmico.
Então eu pensei em dar um jeito nas coisas, trocar de nome, cortar o cabelo - se bem que lavar o cabelo já seria um avanço, falar com menos ou mais gírias, tentar ser simpático, ouvir mais, ouvir menos, dependendo da situação. Recordo das vezes que eu achava que a trepada já estava garantida, e que a garota linda e bacana, emanando brilho, realmente estava preocupada com a lubrificação das paredes vaginais internais, como eu estava preocupado. Não, ela só queria desabafar que o namorado era um monstro, um bronco, um bruto, e eu parecia suficientemente inocente ou trouxa para ouvir e ouvir e ouvir. Eu só concordava com a cabeça, imaginando o calor molhado e o hálito de patricinha se aproximando da cabeça do meu pau - naquele momento, já preparando um bombardeio estratégico, apenas aguardando ordens superiores. Mas ela se sentia melhor e melhor ao me contar todos os pormenores de como 'ele' era horrível, desagradável, como a humilhava publicamente, desprezava suas idéias, criticava sua família e amigas, e impedia qualquer contato com amigos do sexo masculino. Exceto eu, mas eu não era um amigo, era apenas um bom samaritano com ereção por baixo do jeans surrado, tentando fazer cara de interessado - e essa minha boa interpretação sempre era convincente. Horas mais tarde, sozinho em casa, só me restava uma punheta de alívio, de descarga, direto na privada para eu não melar nada, enquanto a idéia de que 'ela' já estava suficientemente aliviada de sua mágoa, e buscava nos braços broncos e brutos do monstro a proteção e estabilidade masculina que, afinal, tanto queria. Provavelmente estaria tão relaxada e curtindo a cabeça fresca, que acabaria até oferecendo o cu como souvenir, pela primeira vez, ao seu namorado Conan. E faria força para gostar, para agradá-lo.
Enquanto isso, eu ainda buscava um riff de guitarra, um poema perfeito, algo que, como um furúnculo, expurgasse da minha cabeça e do meu corpo a carga nervosa e emocional e sentimental e sexual de revolta que tremia as minhas mãos e pernas se eu acordasse de madrugada, com medo do que quer que fosse que estivesse pairando no corredor.