Capítulo 19
(Marcio de Almeida Bueno)
O bacana de tudo é poder andar pelas ruas desta grande cidade, onde sou apenas mais um, apenas um registro contábil, um código da Receita Federal, um passageiro a mais no ônibus, um ser sem rosto e sem compromisso, misturado à multidão, disfarçado de mim mesmo. Só assim pra chutar da memória os remorsos, os momentos de tensão, o nervoso acumulado, a vontade constante de comprar uma motoserra e sair usando nos compatriotas. De maneiras que a válvula - não sei onde ela fica, provavelmente no ânus - solta a pressão na hora que consigo dar uma caminhada, atravesso ruas, passo por vitrines sem olhar - não é preciso, a mim basta saber que algo está lá, cruzo com outras pessoas também sem perceber ou ser percebido.
Um dia desses estava no ônibus, ouvindo FM do celular, o outro ouvido sem fone, atento e tenso, como o gato Barney dormindo mas 'no bico', sempre pronto a dar um pulo, por mais relaxado que esteja. Aliás essa é a maior virtude dos gatos - além de serem indestrutíveis. Pois então um chato sentou ao meu lado - os chatos sempre sentam ao nosso lado, e quanto maior for a viagem ou mais apertado o banco, mais eles se esforçam para corresponder a nossas expectativas.
- Calorzinho d'sgraçado hoje hein? - falou o chato, tentando ser casual ou simpático.
- ... - resmunguei, já olhando para cima, pedindo proteção divina.
- Mais diz que vai'squentá'inda mais! - o chato tinha uma agradável queda pelo som da letra 'i', que enfiava em todas as palavras, unindo sempre que possível.
- Arrã - respondi com uma boa vontade daquelas.
- Pois o amigo sabe - nisso eu já era 'amigo' - quieu tava ontem voltando do Paraná, aí encontrei uns parentes que eu não via há uns vinte anos, como tavam crescidos os meninos, i o véio já 'tava mais pra lá du qui pra cá, tomei um café com eles i fiz um pouco de sala, sabe como é parente, adora dar conversa e mostrar álbum de fotografia. E uma das fotos era uma raridade, uma foto de disco voador, que o cumpadre da minha mulher bateu em 1978, nas terras que ele tinha antes de se aposentar e ir morar com os filhos. Dizqui já tentaram comprá a foto dele, mais ele não vende di jeito nenhum, é um troféu que ele diz que guarda e vai levá pro caixão.
Nessa eu até me interessei, disco voador, hmm. Desliguei a rádio do celular, já estava irritando o ouvido, e perguntei pro cara como era a foto.
- Ah, é bacana.
- Sim, mas como ERA a foto?
- Não sei, eu não vi. Ele não mostra pra ninguém.
- E como sabe que é uma foto de disco voador?
- Porque ele contou. O cumpadre diz que uma loira intergalática visitou ele - ele já foi bonitão, hoje é que tá um caco, doente da perna - e pediu pra ele, sabe, hehe. Dá uma bem dada com ela.
- Ah foi é? - eu não sabia se estava lidando com um maluco, um caipira ou um chato de classificação não-conhecida.
- Hehe, ele diz que foram no matinho e pá. Nessa que ele bateu a foto. A loira dando tchauzinho e entrando no disco voador. Ficou só essa recordação.
Nisso o chato se aproximou de mim, como para contar um segredo da história.
- Ele disse só que ficou coçando, lá no 'bicho véio', por uns dias, mas que foi uma foda daquelas. A loira era bem alemoa mesmo, e ele mandou ver. Representou bem a nóis! - riu.
- E por que ele não mostra a foto?
- Porque a senhora dele tem ciúmes, e não quer nem ouvir falar em disco voador, loira... e nem em trepar também, pelo que ele me disse.
Eu fiquei imaginando os parentes do Paraná do chato ao meu lado, e o patriarca trepando com uma loira tipo Abba vindo de Marte, em um matinho, nos anos 70. E ainda com foto para provar.
- Eu acho que eles vinheram aí só pá pegar cria mesmo - continuou o chato, em sua análise de especialista. A loira deve ter embuchado, e nascido um verdinho em outro planeta. E se eu sou parente dele, devo ter ficado contra-parente da loira né? Uma parte da família pode estar até fora do Universo né não?
"Com certeza", eu pensei, "aí estaríamos a salvo".
Haha, esses dias vi na MTV que o guitarrista do Korn saiu da banda, 'encontrou Jesus', fundou uma igreja, passou a usar visual tipo Inri Cristo, e adotou 200 crianças na Índia.
- Bem, tenho que descer, o senhor me dá licença - levantei.
- Opa, pois não... - o chato deu passagem.
- ...e cuidado com as loiras, viu? - brinquei.
- Mas pois é - o cara respondeu sério - de repente alguma é das minhas parentes de outro praneta - nessa hora ele errou 'planeta' - eu me engraço, o que o padre vai dizer?
- Acho que vai dizer amém. Até mais.
Chato é chato.
