Capítulo 18
(Daniel Barbosa)
Só me restava agora fazer um cursinho pra fazer vestibular pra qualquer merda. Tipo virar pessoa séria, preocupado em fazer aqueles trabalhos de merda que os professores passam pra se livrar de ter que dar aula. Foi nesse cursinho e tal que eu conheci a menina-metal:
-Eu curto Korn, saca?
Mas era gostosinha, fazer o quê?
-Você gosta de new metal?
Putz, o que eu não faço por uma furunfada.
E usava meias até o meio da canela, isso é que mata, maior tara por mulheres com meias até o meio da canela. Até jogadoras de futebol, não posso ver que fico tarado. Daí levei ela lá em casa pra 'mostrar um som'. Ela foi logo fuçando os vinis, eu desconversei, disse pra ir olhar os cds, talvez tivesse algo mais moderno entre eles, se ela visse meus discos de Paulo Diniz ia embora na hora.
-Isso é metal, né?
Se respeite menina, nunca ouviu Love? Porra, quem já viu uma banda de metal com um nome bicha desse? Quase digo, claro que não disse. Putz, O que não faço por uma chavascada. Nem respondi, achei um disco de Led Zeppelin e fui logo colocando, metaleiros adoram coisas bem tocadas. Ela nem conhecia o Led:
-Tem algo de Death Noise Doom não?
Será que ela tá pensando que eu sou headbanger também? Deve ser por causa da cabeleira, tava sem grana pra pagar um barbeiro e depois que eu vi uma foto do Allan Moore em uma revista de quadrinhos fiquei doido pra ter um cabelão como o dele, pena que minha barba não cresce muito, tipo Gandalf saca? Se crescesse ia ficar igual, igual. Cagado e cuspido. Por falar nisso, Hollywood estraga tudo mesmo, Senhor dos Anéis já foi uma das minhas idéias fixas, desde o dia que li numa revista barata de ficção científica de Isaac Asimov sobre como Tolkien era o mestre da ironia, era um texto sobre literatura e tal, daí vem o filme e faz aquela merda, depois que passei meses juntando grana pra comprar o livro. Esse Código da Vinci não quero nem ver. E o King Kong novo? Putz, King Kong virou um macaco moderninho, meio gay, tipo que acha que ter libido é ser grosseiro, ehehehe, o jeito é ver um filminho iraniano com uma historinha simples sobre peixes ou sapatos.
Tá, mas enquanto eu estou aqui divagando, a Menina-metal tá morrendo de tédio no sofá, ouvindo Led.
-Isso né metal não, é? Ah, lembrei que tenho uma fita do Blink 182 aqui dentro da mochila.
Quase pergunto, e Blink 182 é metal? Putz, o que não faço por uma pirocada.
Daí ela colocou e ficou doida, veio para cima de mim como um trem descarrilhando, me beijando como um polvo, apertando:
-O bom é assim, seu porra - e me deu um tapão na cara.
-Colé menina?
-É assim que é bom ...metal ...metal - Porra, a menina parecia do Massacration. Veio rasgando a roupa e mordendo, batendo. Eu empurrei.
Ela me deu um soquinho no nariz, mas pegou de jeito, sangrou.
-Sangue, sangue ao Deus do metal.
-Como é?
-Sangue, sexo só presta com sangue.
-Hein?
Veio de unha no meu rosto, parecia o Wolverine.
-Quero mais sangue!!!
Putz, sabe o que fiz? Me piquei dali, saí correndo mesmo, expulso do meu próprio lar. Empurrei ela em cima da cama e disse "se quer sangue vai menstruar, sinha puta" e me saí, batendo a porta da frente. Fiquei escondido atrás do muro do vizinho só esperando ela sair, com uma vontade do caralho de ir para o conforto de casa, colocar um Portishead e ficar lambendo minhas feridas (literalmente). Ela demorou horas para sair, batendo a porta com força. Foi ela saindo e eu entrando. Putz, quando fui pegar o Portishead em edição importada em vinil tava escrito na capa de papel e até no disco: "isso não é metal, seu viado!!!!". Olho para os outros LPs e em todos tinha escrito o mesmo, às vezes com batom, às vezes com caneta Bic e giz de cera, que sempre deixo em cima da mesa para desenhar. Tava tudo arranhado e rabiscado.
Putz, o que não faço por uma sarrafada.
