Capítulo 17
(Marcio de Almeida Bueno)
Eu andava numas de fazer um curso via correspondência, alguém tinha me assoprado que dava pra fazer um curso qualquer na barbada, ganhar carteirinha, diploma, e até arrumar um emprego. Não que eu estivesse torcendo por arrumar um emprego, mas é que as coisas andavam num aperto daqueles, e chega um hora que o cadáver pede um pouco de conforto, algo mais a oferecer do que o corre-corre diário, sem ter uma graninha pra morrer num café, ou comprar um jornal ou um disquinho. Só isso já me basta, poder sair de casa, sentar em algum lugar, ficar observando as pessoas em silêncio, ler alguma coisa, ver um cachorro, prazeres simples era o meu desejo no momento.
Achei um anúncio num lugar qualquer sobre uma escola de cursos via postal. A sede era do outro lado do país, mas eles garantiam que eu me sentiria na própria sala de aula - isso não era meu desejo, quem procurava essa oportunidade de formação à distância é porque tinha, no mínimo, falta de interesse em maiores convivências sociais. A lembrança de TER que ir para a escola era horrível, aqueles dias de chuva que eu tinha que estar em um prédio cinzento, cheio de trouxas, piranhas, antas, dondocas, esnobes e demais categorias humanas, tudo era terrível. Às vezes, dizer 'bom dia' era muito desagradável, ainda mais quando a coisa toda é uma obrigação, um sentido que todos têm que dar às próprias vidas diárias. "Vocês sabem o que fazer, rapazes, não criem problemas".
A tal escola tinha curso de caligrafia, desenho arquitetônica, desenho artístico / publicitário, detetive particular, mecânica de motores, mestre de obras e 'madureza ginasial', o que quer que isso significasse. Acho que peguei um anúncio em uma revista muito velha - sim, era uma revista que comprei em um sebo do centro da cidade, e tanto o exemplar quanto o proprietário do local eram sebosos. Arre! Pensei que o 'centro de ensino' poderia não ter mudado de endereço. A revista era de 1972 - eu nem tinha nascido, e o pau do meu pai ainda estava longe da xota da minha mãe - resumindo assim a coisa não fica tão romântica, mas matematicamente é isso, rapazes!
O anúncio tinha um cupom do tipo "não precisa selar", e eu sempre fui fascinado por isso, como fica um treco desses de três décadas atrás? Será que o correio aceita? Até o CEP era meio diferente, tinha números a menos, mas resolvi arriscar, só pelo nonsense da coisa. Preenchi com letra bonita, afinal ia solicitar o curso de Caligrafia Profissioal. Eu ia ser um funcionário de destaque, a partir dessa formação em meu currículo. Recortei e dobrar e meti em uma caixa de correio, já que no lugar do selo dizia "não é necessário selar, o selo será pago por...". Agora é só esperar, e fui procurar o café mais barato que tinha por ali.
(...)
Passaram-se vinte dias, recebo uma carta. Estava em nome de uma mulher que eu não conhecia. Pela letra, era alguém já na finaleta da vida, que um dia teve uma letra rebuscada e cheia de curvinhas e rococós. Li a tal da carta. Em resumo, ela era viúva do proprietário da escola de cursos por correspondência. De alguma forma, o cupom chegou até ela. A velhinha disse ter ficado emocionada, porque faziam alguns anos que a empresa tinha sido vendido para terceiros, e ela teve que se aposentar. Perguntava onde eu havia conseguido aquele anúncio, qual o meu interesse, se eu gostaria mesmo de fazer o curso à distância, ela se disporia a repassar as lições semanalmente e tudo mais, como eu faria para pagar etc.
Mais tarde, refletindo sobre a história, achei por bem desistir do curso de caligrafia, e tentar alguma coisa numa instituição tradicional, com colegas e professores e toda a pantomima incluída. Era mais honesto eu enfrentar as aulas como um anônimo do que dar esperanças a uma velhota que eu não conhecia, e que acabaria por se afeiçoar a mim. Não tenho nem amor próprio, como vou dar corda a alguém que se agarra a um cupom vindo de longe, ...vindo de três décadas antes?
