Capítulo 16
(Daniel Barbosa)
Depois de um tempo minha língua já fazia parte de meu corpo novamente. Esqueci a borboleta. Em compensação virei freguês número um do bar que comprei guaraná para lavar minha alma daquela sebosa. Virei até amigo do dono, Seu Gumercindo. Seu Gumercindo ficou tão meu amigo que me levou para conhecer sua família (mulher , irmã e dois filhos). As crianças pareciam anões saca? Putz, eu sempre odiei crianças que parecem adultos, se vestem como adultos, e falam com aquela voz irritante de criança mas usam palavras de adulto, com entonação de adulto estressado. Elas eram os donos da casa, Paulo e Paula. Eu tinha até dó do seu Gumercindo, fazendo tudo que a criançada mandava:
-Hoje é dia de nós levar ao circo, você prometeu, não se deve prometer as coisas paraa uma criança e não cumprir.- Elas adoravam chamar a si mesmas de criança, mas usavam isso sempre a seu favor.
-Tá, só vou terminar de ver esses filme..
-Você disse cinco horas, já são cinco e cinco.
-Peraí...
-Não se deve fazer uma criança esperar!
-Ah, calma...
-não se deve falar alto com uma criança!
-Humpt! Ok, ok, qual circo mesmo vocês querem ir?
E era sempre assim, Paulo e Paula mandavam na casa. Eu ficava ali como observador. Só tolerava aquilo porque seu Gumercindo era moral, estava sempre me dando algo, um almoço, uma graninha para o cigarro, velhos discos de Odair José. Eu comecei a pegar afeição pelo gordo, pô, ele era como um pai para mim. Sempre colocava na rádio que eu gosto quando eu chegava no bar, sempre me levava para tomar umas em sua casa. E eu sempre tinha que aturar aquelas crianças miseráveis. Os pentelhos pareciam nazistas, ou pior ainda, sei lá, publicitários, com todas aquelas técnicas de persuasão:
-Queremos comer pizza hoje!
-Tou sem grana.
-você prometeu. Na sua conta tem dinheiro suficiente.
-Coméqui vocês sabem?
-você pensa que somos crianças é?
Era sempre assim, mudam de idade de acordo com suas necessidades diante do pai, da mãe ou da tia.
Não vou mentir, dava vontade de matar aqueles guris.
E foi isso que Gumercindo me propôs:
-Você é meu amigo, eu te dei comida, dormida, cigarro, discos do Odair José, Mata eles para mim, por favor.
Pense num cara transtornado?
Eu ainda pensei em aceitar, mais depois lembrei que quem mata criança só se fode na vida, nem pro céu vai. O inferno é quente demais. Acho que nem ventilador tem.
Daí eu disse:
-Colé Gumercindo, são seus filhos!!!
-Filhos filhadaputa, é que são.
Eu quase ri quando ele disse isso, mas não tinha clima para tanto.
Não sei porque, mais falei:
-Pode, deixar, eu não vou matar, mais vou dar um jeito nos fedelhos.
Ele se jogou em meus pés agradecendo como um demente.
Putz, os guris destruíram os miolos do cara.
-Vamos lá em sua casa, preciso falar com eles.
Fomos andando com passos rápido.
Chegando lá fui direto aos guris. Pedi a Gumercindo para ficar do lado de fora da casa:
-Seu Pai me pediu para matar vocês.
-E você vai nós matar?
-Nem sei, acho que não...
-Ah, mata!
-?
-Pode matar, eu não ligo...
-não?
-Odeio morar com essa gente mesmo.
Tirei o 38 velho do bolso e deu dois tiros, um em Paulo e outro em Paula. Os dois na cabeça, quase no mesmo lugar, entre os olhos, minha mira continua boa.
Saí e vi a cara de Gumercindo assustado:
-Fiz o serviço.
-Hein? Mais Você não falou que não ia matar?
-Eles pediram.
Gumercindo entrou correndo em casa e se juntou a mulher e a irmã num choro em uníssono. Putz, como chora feio esse povo.
-Ah, o que vou fazer? Meus anjinhos morreram, Meus anjinhos morreram. - Gritava Gumercindo, em prantos.
Ainda tinha duas balas no revolver. Foi o que a grana deu pra comprar. Poupei a irmã. Pura sorte. Ela é um doce, cozinha bem pakas, adora um tchaka-tchaka e curte Odair José. Juntamos os panos de bunda. Na casa de Gumercindo claro. Os corpos a sete palmos, mais ou menos, enterrados no quintal. O único inconveniente que é que nunca vou poder mandar fazer uma piscina ali.
