Capítulo 15
(Marcio de Almeida Bueno)
Graças a Deus me esqueceram logo depois dessa história de 'one-hit-wonder', que para um conhecido meu significava 'a primeira maravilha do mundo'. Sim, inglês 100%. A coisa andava muito rápido, qualquer idiota distante se ligava em mim via Internet, então durante um tempo eu tive que desviar de uma série de malas que viam em mim a solução para seus próprios problemas. Propostas de casamento, fotos eróticas, ursinhos de pelúcia - porque um dia eu fui cair na besteira de dizer em uma entrevista que eu "amava aqueles ursinhos fofos de pelúcia", era sarcasmo, claro, mas os mais débeis entenderam como um sinal verde para me enviar teddy-bears pelo Correio, enquanto que alguns entenderam que eu era gay da linhagem 'bear', aqueles gordolões, peludos e barbudos. A Internet realmente é uma maravilha. Bom, a piada durou só um mês, logo eu estava esquecido, e minha tola canção de sucesso já era velha. Daqui a uns 20 anos estarei talvez na programação de rádios do tipo flashback, quem sabe, junto com Air Supply, Gilliard, Hall & Oates e Gang 90.
Aí eu tava na rodoviária e a droga do ônibus ia demorar ainda três horas, e não dava tempo pra fazer nada, exceto esperar como um porquinho rosado espera o caminhão chegar na slaughterhouse. Ao meu lado, dois chatos conversavam, um deles disse "...executei de forma satisfatória os procedimentos técnicos necessários para a plena finalização pretendida". Provavelmente ele trabalha com logística, que é o troço mais chato do mundo. E eu já não estava mais agüentando ouvir o papo alheio. Tinha uma única lanchonete com algumas revistas, tá ligado encalhe de rodoviária né? Só tem revista pornô sueca, 'Blacks on blondes' e Private velhas. Pelo menos não são usadas, uma vez eu comprei uma importada cheia de páginas grudadas, e o antigo dono ainda fez umas anotações a caneta nos cantos, não sei se era pra saber quais as 'melhores' fotos, 'as que davam mais sensações'. Acabei comprando uma revista Private, aquelas cheias de anúncios de leitores, fotos de mulheres com celulite e furo na bunda, usando máscara de Tiazinha, casais transando, paus duros apontando para o Norte, closes ginecológicos, poses supostamente eróticas e tal - um verdadeiro tratado do imaginário sexual dos nossos vizinhos, esses seres repulsivos. Fiquei folheando a revista, tentando achar algum parágrafo para gastar tempo em leitura, mas só achava figuras. Obviamente o pau ficou duro, claro, não sou padre. Ou melhor, ainda bem que não sou padre, nem fui coroinha!
Teve um anúncio que me chamou atenção, era de uma cidade próxima, tinha email e tudo mais. O pseudônimo era 'Borboleta da noite', e a foto estava um pouco acima dos closes obstétricos das demais fotos femininas. Pelo celular mandei uma mensagem, aguardando resposta imediata, como se isso fosse acontecer. Claro que aconteceu, se não este capítulo não teria razão de existir. Resumindo, marcamos uma ponte pra um fuc-fuc. Sim, não me espantei, já que o objetivo do anúncio era essa. Princesa encantada não colocaria anúncio com a xoxota aberta e babando, pra ser publicada em cores. E babava mesmo. Lembro que quando eu era criança eu fiquei impressionado com uma frase que ouvi, acho que na escola, que "o pecado original era nascer entre o mijo e as fezes" - frase dita por algum professor religioso. Imaginava uma meleca, vísceras, xixi e cocô, os participantes suados, e de repente o médico, com luvas de borracha, intervinha pra tirar o nenê ali do meio. "Casar nunca", eu pensava, apavorado. Era bem melhor correr e chutar os coleguinhas, na época.
Fui bem recebido na casa da pinta, a 'Borboleta da noite'. Claro que, pessoalmente, era muito mais feia que na foto. Enquanto ela falava sobre qualquer amenidade, tentando fingir que havia qualquer outro objetivo naquela situação que não fosse atrito nas paredes internas da vagina, durante alguns intermináveis minutos. Ela falava umas merdas qualquer, e eu hipnotizado, ainda cansado da viagem de ônibus, pensava se não tinha trocado a foto dela na hora da impressão, alguém se atrapalhou no meio de centenas de anúncios, e publicou uma outra no lugar da dela. Era suficientemente diferente. "Vou trocar de roupa para ficarmos mais à vontade", ela disparou o clichê que eu achei que só era dito em filmes. Olhava a cafonice da decoração, os bibelôs horríveis na prateleira, os riscos na parede, quem morava ali era bem brega e relaxado. Ela demorou um pouco - outro clichê - e eu fiquei lembrando de um diálogo que tive na véspera, com um conhecido.
...
- Bah, coisa fina aquele disco 'Build Up' da Rita Lee, a banda de apoio é Mutantes, e a produção é do Arnaldão Baptista. A versão para 'José' é de chorar de tão triste e bonita.
- Mas 'Macarrão com lingüiça e pimenta", quem diria hein dona Rita Lee? E os arranjos são meio sub-Petula Clark.
- Coitado do Arnaldo!
- (Ouvindo o disco) Ih, aquelas histórias do Arnaldo que Jesus era um alienígena. Deu vontade de jogar fora o 'Let it bed'.
- Ele tá certo na filosofia dele, mais que muita gente por aí - respondi, na ironia.
- Arrã, ele e o Ashtar Sheran.
- Só conheço o leão Aslam!
- ...Tá, uma música eu gostei, a 'Hulla hulla', e a cover dos Beatles tá valendo também.
- Nem a "José"? É a música favorita do meu coroa, no francês original.
- Tem umas psicodélicas de verdade que eu gostei, as de mulherzinha achei ruins. Mas o Arnaldo aproveitou mesmo pra socar a 'filosofia dele' nesse disco. Também, quem paga tem direito".
- Claro, ganha a música e já 'uns toques' pra se ligar! - tirei um sarro.
- Mas voltando ao papo de religião e conspiração... coincidência os 'Templários' adorarem o Bafometo e guardarem 'o segredo do Santo Graal', né?
- Eu não sei de nada, sou do tempo da catequese... Jesus, Maria, José, Natal, Páscoa, obedecer o 'papai do céu', e acabou-se. O resto é grupo, como dizia o Bezerra da Silva.
- Tá ligado o Bill Moseley?
- Hã... não.
- O cara do 'Massacre da Serra Elétrica 2', aquele da plaquinha de metal na cabeça.
- Ah sim, 'o caroneiro'. Que que tem?
- Tocou numa banda aí, nos anos 70.
- Todo mundo já tocou numa banda. Menos nós.
...
Nisso a Borboleta voltou, com uma roupa que, só na cabeça dela, excitaria um homem. Eu tava mais a fim mesmo é de descarregar a coceira do pau, e ir embora. Acho que teria até nojo de limpar o pau na cortina, pelo encardido do pano. Vai saber quem esteve ali antes. Minutos depois estávamos transando, uma foda bem mais ou menos, mas também eu não podia decepcionar uma possível futura groupie. Imagina o que o Mick Jagger já teve que enfrentar, aquelas ripongas pentelhudas que não tomavam banho. Tudo em nome do rock'n'roll. Aí a moçoila, no meio do suadouro, pediu que eu colocasse meu 'aquilo' nela, em uma modalidade que a Bíblia chamaria de "contrária à Natureza". Senti mais asco que qualquer coisa, mas isso me livraria de ter que explicar porque eu era o único brasileiro vivo que não era "vidrado num bumbum", como sempre dizia a Playboy nos anos 80. Executei de forma satisfatória os procedimentos técnicos necessários para a plena finalização pretendida.
Na hora de botar as calças, fui ajeitar o Fábio Júnior - sim, este era o apelido que uma antiga namorada havia dado ao meu pênis, não me pergunte o porquê - e vi que havia, eca, uma coisinha preta ali no 'buraquinho do olho mágico'. Sim, por onde sai o xixi, já que alguns não entenderam e vão me perguntar depois. Não conseguia identificar se era uma casquinha de feijão, mas era bastante perturbador. Ela estava colocando de volta o short amarelo - besame, besame mucho - quando notou que eu estava examinando a estrovenga com atenção.
- O que foi? - perguntou
- Uma sujeira aqui na ponta do meu pau.
Silêncio constrangedor. Um cachorro latia, ao fundo. Au-au-u-u-u.
- ...passa a unha que sai - falou, ficando meio emburrada.
- Não, depois eu vou ficar cheirando o meu dedo toda a viagem de volta. E esta cueca é nova, não queria...
- Aqui é que tu não vai tomar banho, seu porco - estava emburrada de vez. "Minha bunda é suja, é?", devia estar pensando.
- Olha, essas coisas acontecem mas eu não posso esconder que tenho nojo.
- Muita gente me assovia na rua, elogia minha bunda, e você parece que transou com uma leprosa - já estava gelada, a Borboleta.
- Posso lavar na pia?
- De jeito nenhum, e vai embora que minha vó deve chegar daqui a pouco. Seu 'meia-foda' - o desdém já era a tônica.
- Escuta, você não se lavou hoje, sabendo que ia fazer sexo anal?
- Ha-ha, isso é para travesti. A mulher aqui é muito da gostosa, se quer saber. Recebo muita carta, email e telefonema de quem vê o meu anúncio. Estou sempre transando, se quer saber... hoje mesmo, mais cedo, dei gostoso pra um cara que me contatou antes de você.
- Alguém esteve aqui e te comeu antes de mim?
- Minutos antes. E o anal dele foi bem mais profissional que o seu. O pau estava meio sujo, com uns queijinhos na pele que encobria a glande, mas eu disse que encarava mesmo assim, só não chupei, por nojo.
- E você me disse que já estava me esperando com KY passado nesse rabo sujo, que por isso mesmo a penetração foi macia!!!! - eu gritei
- Ha-ha-ha - ela riu cinicamente - o cara é que gozou dentro de mim, e a meleca ajudou na SUA entrada. Provavelmente a casquinha de feijão era dele, vai saber por onde andou o 'pirata-de-um-olho-só' dele!!!
- E eu ainda passei a língua, porque você pediu! Disse que era um caldinho saindo "pelo excesso de tesão" que eu lhe causava! Sua puta!
- Bem, fora daqui, antes que eu chame a polícia.
Saí correndo, colocando a cueca com o maior asco, como se meu pênis já não fizesse parte de mim, e parei no primeiro boteco que vi. Pedi guaraná. Enchia o copo, bochechava com vontade e cuspia tudo com força no lado de fora da porta, na calçada. Sob o olhar atônito e desconfiado do proprietário, eu disse que "era pro santo". Mas na verdade eu sentia que minha língua TAMBÉM não fazia mais parte de mim. Eca.
marcio de almeida bueno - 23:37
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17.1.06
ABRE PARÊNTESES!
Na semana passada entraram no ar os capítulos 13 e 14 do MÚTUO, livro que está sendo escrito 'ao vivo' no blog www.mutuo.blogger.com.br por MARCIO DE ALMEIDA BUENO e DANIEL BARBOSA. Ambos são militantes do underground e da contracultura desde o final dos anos 80, e há cerca de uma década fazem trabalhos conjuntos - poesia, composições, histórias em quadrinhos, fanzines - à distância, já que Marcio mora no RS e Daniel na Bahia. Tudo isso compartilhando o mesmo gosto por rock and roll e mpb prafrentex, discos de vinil, literatura pé-na-porta, filmes transgressores, arte rebelde, cultura lixo, xerox, psicodelia, violência Atari, tênis sujos, camisetas pretas e guitarras pegando fogo!
- Marcio de Almeida Bueno, 31 anos, edita o fanzine FALÊNCIA FRAUDULENTA desde 1991, teve cartuns publicados nas revistas GERALDÃO e NÍQUEL NÁUSEA, e foi destaque no lendário livro ALMANAQUE DOS FANZINES, de Bia Albernaz. É Jornalista, e entre outras atividades faz parte do MusicaTri, que mantém o site www.musicatri.com.br e um programa de tevê no PoaTV da NET. Como compositor, lançou as demos 'So Sad Songs', 'Morrer Está Na Moda' e 'Reze Menos Por Mim' e o cd 'Sol Dentro Do Banheiro', em sua carreira-solo. Com seu projeto de metal extremo TRUCK LIKE TANK, participou em 2002 do cd-tributo 'No shit...', lançado pela Crippled Tickler Records, da Suécia, reunindo grupos do mundo inteiro interpretando canções do não menos lendário G.G. ALLIN. Em 2004, com seu projeto de electro MÁQUINA DE ATENDER TELEFONE, participou de uma coletânea editada nos EUA pela gravadora Comfort Stand dedicada a temas inspirados em filmes pornôs. Atualmente aguarda a 'segunda vinda' de Elvis Presley. www.falenciafraudulenta.hpg.com.br
- Daniel Barbosa, 28 anos, é um matuto moderno do interior da Bahia, seu primeiro zine foi o 'Célebro Exposto', com direito a erro de português cometido por uma criança de 10 anos! Desde 1994 edita o 'Mr Hyde Zine', principal título de uma série de publicações voltadas à colagem, poesia, quadrinhos e experimentações. Também publicou fanzines somente com reproduções de suas pinturas, e em meados dos anos 90 editou dois números do zine 'Mútuo', junto com Marcio de Almeida Bueno, protótipo e balão de ensaio da obra atual. Expõe seus quadros regularmente desde 1995, em cidades baianas como Alagoinhas, Sítio Novo e São Félix, além de ter feito uma mostra individual em Salvador em 2001, no Shopping Piedade. Em 98 participou do livro 'Formaline', editado na Bélgica, com desenhistas de todo o mundo. Já tocou em bandas de rock baianas como Osmose, INRI, Diablues e a recente Miss Underground & Os The Sepcionantes. Recentemente lançou seu primeiro cd-demo, 'Space Circus', assinando como a banda imaginária 'Danielvis The Pelvs And The Interior Gang', e contando com a participação de Dennis Wilson, "um quase-VJ da MTV". roquetriste.blogspot.com e danielbarbosa.blogspot.com
FECHA PARÊNTESES!
marcio de almeida bueno - 16:13
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9.1.06
Capítulo 14
(Daniel Barbosa)
De repente, minha vizinha muda de gosto, agora ela só coloca coisas antigas de Lou Reed, New York Dolls, David Bowie. Outro dia encontrei ela na escada do prédio:
-Glam, saca? Agora eu sou um Glam girl.
Putz, não sei de onde ela tirou essa, Glam. Deve ter sido influenciada por essas bandas hype-do-momento.
-Vi um documentário sobre o Glam rock na Tv a cabo. Me amarrei. Negócio de funk, o must agora é o Glam.
Mas até que ela ficou gata com aquelas plumas e paetês, batom preto, sapatos plataforma, cabelo verde, óculos escuros.
Passei a sair com ela. Putz, uma garota que transa ouvindo Transformer de Lou Reed.
Íamos a boates de drag queen, já que ela não achou nenhuma boate glam na cidade.
Tudo ia bem até eu descobrir que ela era esquizo.
-New wave manja?
Sim, agora ela usava cabeleira estilo a mulher de homer simpson, B-52´s, ternos verde limão, lia a revista UFO, usava óculos 3-D o dia todo, botas cor de rosa, e ouvia Devo.
-Assisti na Tv a cabo.
Tudo bem , um troca justa, ela ficou mais trash, meio anos oitenta, blitz e tal, mais tudo bem.
Passei a morar no apê dela, no meu nos criamos um estúdio e montamos uma banda chamada Esquizo Lady. Ela era a vocalista. Algo meio De Falla, saca? Cada novo disco era um estilo diferente.
-Agora sou uma punkinha.
Disse ela quando me apareceu com o disco do Richard Hell embaixo do braço, cabelos espetados, uma camisa escrito "I hate pink floyd", como a que Johnny Rotten usava na época da Sex, alfinetes de criança espetado na camisa. Bottons.
Tudo ok, punk rock é legal.
Ela tocava baixo. Desaprendeu o que sabia para tocar como os ramones. Hey ho, Let´s Go.
Mas quando ela me apareceu com uns megahair na cabeça, calça dos estados unidos, aquelas pulseiras que os caras que querem parecer guitarristas usam, e ouvindo guns n roses e jon bovi o nosso rompimento foi inevitável. Hard Rock Farofa não. Não tem cristão que agüenta essa bosta. Terminei tudo e fui para casa ouvir meu nick Cave na solidão da minha casa , que agora era um estúdio. De primeira, fiz uma canção, "Ela Me Trocou Por Um Short Com Enchimento". Não é que a canção fez sucesso? Tocou em todas as rádios, da noite para o dia virei tipo um mamonas assassina solo. Um dia ela veio me visitar. Ela usava franjinha e uma camisa do selo Midsummer madness.
-indie rock saca?
Putz.
Daniel Barbosa - 21:46
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7.1.06
Capítulo 13
(Marcio de Almeida Bueno)
Acho que vi você, em frente a um cinema, duas da tarde, aquele sol na minha retina. Acho que vi você, perguntando a um passante que horas eram, quanto tempo faltava. Acho que vi você, andando na rua, cheio das bossas, penduricalhos e correntes. Acho que vi você, o dia ainda não era noite, os olhares suados dentro do ônibus. Acho que vi você, bata indiana, descendo na esquina em frente ao correio. Acho que vi você, horas depois, subindo a avenida, com óculos na testa. Acho que vi você, desderdado da vida, maltripilho e fedorento, cruzando no sinal. Acho que vi você, empoeirado e estranho, cheio de recordações e lembranças e marcas digitais e pequenos arranhões invisíveis à distância. Acho que vi você, batendo fotos, fazendo poses, mexendo na mochila, acendendo um cigarro. Acho que vi você, carregando uma pasta, olhando o relógio, atendendo o celular. Acho que vi você, andando em bandos, todos de tênis americanos iguais. Acho que vi você, um pouco mais velha, mas ainda ereta, e exibindo-se pra mim. Acho que vi você, arrumado pra sair, com gel no cabelo, olhando pelo canto do olho, sentado fingindo estar natural. Acho que vi você, lendo revista, espiando curiosa, cruzando as pernas, olhando de novo. Acho que vi você, penteando o cabelo, escondendo o dente que falta, rindo com os colegas pra esconder o mau-humor pro resto do mundo. Acho que vi você, respondendo estranha, criando um mal-estar. Acho que vi você, preocupado e interessado, mas atrapalhado e esquecido e sumido e confiável. Acho que vi você, estressado nas férias, com dores por tudo, voltando ao local de trabalho. Acho que vi você, vendendo tênis na rua, com a barba crescida, pegando os lances. Acho que vi você, com a faca sempre cortando as entranhas, aonde quer que você vá. Acho que vi você, drogada e de óculos escuros, rica e infeliz. Acho que vi você, perdida e caipira, louca, feia e chata. Acho que vi você, fazendo pose, criando pose, cultivando poses. Acho que vi você, perdido entre rotas, encolhido na pose, curtindo a nobreza.
Cara, foi uma seqüência de pensamentos daquela. O troço fluía como uma torneira aberta, era começo e fim ao mesmo tempo, o que saía era rabo do que estava já lá na frente, e era cabeça do que viria depois. Em jatos, quase. Dormir depois era o problema, a cabeça ficava a mil, idéias sapateavam na minha testa, eu me lembrava de alguma cena excitante, meu pau ficava duro e coçava, eu virava o travesseiro - só consigo dormir com o travesseiro gelado, se esquentar eu me sinto terrivelmente mal - mas tudo estava espinhento.
Muitas bandas adquirem um pico de maturidade, eu pensava enquanto selecionava que disco ouvir na minha prateleira, depois de alguns anos de atividade. Beach Boys, por exemplo. A coisa era bem ensolarada, nada contra, até que o Brian Wilson passou a ficar trololó das idéias e o som começou a mudar. Tinha Beatles na parada, a maior pedreira que uma banda poderia enfrentar, e a temática das músicas começa a mudar - um dos primeiros sinais que a banda está amadurecendo. Então o final dos anos 60 e comecinho dos 70 é a melhor fase dos Beach Boys pra mim, todo mundo com barbão e boné, pinta de jesus redneck, e sonzaços fudidos como 'Tears In The Morning' - o cara tem que ter culhão pra escrever uma canção assim. O mundo do rock já era outro, Jimi Hendrix, Creedence e tal, e essa fase dos Beach Boys é genial, anos-luz da fase 'todos com pijamas iguais'. Claro que lá no meio o cara encontra sinais do que iria se desenvolver no seio do grupo como estilo amadurecido, e que bom que a coisa floresceu, ao contrário de muitas bandas que morrem na promessa. Rolling Stones é outro exemplo. O começo era basicamente imitar Beatles e Chuck Berry, e aos poucos os caras foram criando vergonha na cara. Pouco a pouco pintavam sons criativos e com temáticas que não incluíssem a palavra 'baby', mas a tosqueira dos discos é inegável, parecia banda de colégio com produção razoável pra enganar os pais. E aquela capa de 'Their Satanic Majesties Requested' é a coisa mais constrangedora do mundo, tu vê que ninguém da banda consegue ficar à vontade, fantasiados de Beatles fantasiados de Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band. Não sei como não rendeu um processo. Mas eis que a banda passa a lançar uma seqüência de álbuns formidáveis - 'Beggar's Banquet', 'Let It Bleed', 'Sticky Fingers' e 'Exile On Main Street', justamente recheados de canções com temáticas amadurecidas, como eu citava antes. A banda deu uma descida em meados dos anos 70, com discos razoáveis, e volta à carga na fase de 'Some Girls', 'Emotional Rescue', 'Tattoo You' - defendendo sua posição do ataque direto do punk rock e até da discoteca, algumas vezes assimilando elementos desses dois estilos, sem sair do próprio som. Mas os discos de 68 a 72 são os que mostram a banda mais amadurecida, coesa, nos instantes anteriores à figura do heroísmo e heroína.
Peguei a vassoura e dei umas boas vassouradas no teto, porque as vizinhas de cima, "ah, elas estão descontroladas"!
