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mútuo



21.12.04



Capítulo 8
(Daniel Barbosa)

Tudo bem, apesar de ter dado uma parte da grana para a caridade, ainda fiquei com algo, afinal ele nunca ia saber se eu dei tudo mesmo. Já tava cansado de ver Kétlyn naquela vidinha sem graça, lá deitada num colchão no chão vendo “pograma do Ratinho” toda a noite, resolvi levar a mina para passear. Ela ficou super feliz, deu para ver no rosto dela. Sério, eu sempre sabia o que ela estava sentindo, ela é de plástico, mas também é gente, tá? Tem tantas pessoas por aí que são mais artificiais que ela (eca, essa foi realmente terrível, parece que saiu de um livro de Paulo Coelho, sei lá). Aí ok, levei ela para comer uma pizza num Restaurant:
-Tá gostando, amor?
-Claro, adoro pizza.
Eu sempre sabia o que ela queria dizer, na verdade ela nem precisava falar, eu já lia todos os seus pensamentos. Coisas do Coração.
-Quer mostarda, amor?
-Claro, eu adoro mostarda.
Foi quando o babaca do garçom veio tirar onda:
-não pode ficar com a boneca aqui.
-Hein? Como assim, você vai logo assim chamando minha gata de boneca?
-er...Não pode ficar aqui com ela?
-Porque não?
-É...as cadeiras do restaurant são para as pessoas sentarem.
-Sim, por isso ela está sentada.
-Mas ela não é uma pessoa.
-Como assim?Tem pessoas por aí que são muito mais artificiais que ela. – me saí com essa de novo.
-Desculpe, você tem que se retirar.
-Tudo bem!!Posso ir ao banheiro antes?
-Claro!Mas ande rápido!
Levantei e caminhei em direção ao banheiro e ainda ouvi o garçom falar com Kétlyn:
-Desculpe madame, é que não aceitamos pessoas com tanta maquiagem nesse restaurant.
Volte 3 minutos depois e Kétlin não estava em seu lugar, procurei com os olhos por todos os cantos e não a vi.
Meu Deus , onde ela foi parar?





Daniel Barbosa - 23:43

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16.12.04


Capítulo 7
(Marcio de Almeida Bueno)

Acordar já foi mais fácil. Eu estava tendo problemas com meu sono, como se ir dormir fosse o castigo final de um dia puxado. E os últimos dias tinham sido difíceis. Primeiro, um idiota qualquer começou a passar trotes para o meu telefone, ligava várias vezes seguidas.
- Alô?
- ...
- Alô?
- ...
- Essa merda não está funcionando. Alô, porra!
- Sim...
- Ah, agora sim, pois não?
- Não é fácil...
- Como é? Isso é algum tipo de brincadeira?
- Tornar-se o que gostaria...
- Tomar o quê? Ah, vai à merda!
E eu batia o telefone na cara do sujeito. Ele que vá pastar.

Minutos depois, o cara ligava de novo.
- Alô?
- Saber-se jovem e belo...
- Ah, não, de novo não!
- Um olhar para as estrelas do íntimo...
Desligava direto. Chegou a tal ponto que eu não atendia mais o telefone. Já sabia que o peãozinho ia estar do outro lado, falando com voz melosa e pastoral umas frases meio proféticas, meio filosofia de livro de auto-ajuda, tudo com dois ovos por cima. Lembro de um professor no colégio que sempre iniciava a aula lendo em voz alta um livro de frases, escolhia uma maldita citação e lia com toda a cerimônia e postura, como se o futuro de nós alunos, pobres-diabos, estivesse agarrado ao cumprimento ou não do significado daquela frase. Eu geralmente nem escutava, mas lembro de uma que me marcou bastante, era algo do tipo "o homem que está de frente para um abismo tem atrás de si uma vontade". Nunca entendi o que significava, eu pensava que era o único que não entendia, então era o único que estava fudido na vida, inexoravelmente. Volta e meia eu pensava na frase, entre um cigarro e outro, tentando encaixar algo que minha mente havia aprendido, com aquela citação. Nunca deu certo, e tive vergonha de perguntar a alguém o que aquilo queria dizer.

De maneiras que o trote - no mínimo inusitado, me fez lembrar essa época de escola. Eu liguei então um plugue junto ao telefone, de forma que pudesse gravar todas as conversações telefônicas. Era só esperar o idiota ligar, já estava até atrasado!
- Alô! Alô! - atendi, eufórico
- ...
- Alô? O que vai ser hoje? - perguntei, enquanto acionava o REC do gravador
- ...
- Fala alguma coisa, porra!
- ...
- Era o que me faltava...
- Feliz é o homem sadio e só...
- Beleza, quero ouvir mais!
- ...
- Hm?
- Viver em fases...
E, pela primeira vez, eu desliguei na cara do sujeito. Ouvi a gravação, estava bem nítida, tão nítida quanto pode estar uma conversa no telefone registrada em fita cassete. Passei a gravar todos os trotes, compulsivamente. Depois de alguns dias, fiz umas montagens, e logo o produto final estava pronto, uma fita só com as frases 'profundas' proferidas pelo cara.

Acho que ele desconfiou da minha receptividade, e meu ânimo de ficar escutando aquelas bobagens, até que ficou uns dias sem ligar. Tudo bem, eu espero.

Até que, ontem à noite, ligou novamente. Eu mal podia esperar, havia colocado o plugue para tocar, então eu ia disparar a fita, para 'responder' às frases. O diálogo foi antológico:
- Alô?
- ...
Alô?
- ...
- ... - silenciei, também, só para dar o charme
- Morte da alma e da moral... - ele falou, e eu apertei o PLAY do cassete
- Nau que viaja na emoção... - 'respondi', com a gravação da voz dele
- ...
- Vamos, chefe! Guerra é guerra! - desafiei
- ... - o silêncio dele às vezes era sepulcral, como de uma madre superiora furiosa com uma das internas do convento
- ... - fiquei quieto também
- Daqui não se leva nada mesmo...
- Não sei porque estou aqui...
- Resta nada...
- Basta de dúvidas, agora...
- Só sobra o pensar...
- Falar é desabafar a alma...
- Contemple o Sol, contemple a Lua...
- Máscaras caem a todo instante...
- Acordar é buscar...

E seguiu assim por uns bons 10 minutos. Repeti a dose no dia seguinte, até que tive a idéia, brilhante idéia aliás, de gravar o resultado final. Quer dizer, eu arrumava outro gravador, plugava na entrada para gravar, ao mesmo tempo o outro tocava a fita, no final eu tinha um mini-estúdio funcionando junto ao telefone. E era divertido, eu lembrava o Pernalonga, que ao final de um desenho dizia "se não pode vencê-los, junte-se a eles", enquanto mordiscava uma cenoura. Eu queria levar o troço a fundo, minha guerra pessoal, iria até o momento que ouvisse o 'meu adversário' titubeando, descendo do salto alto de sua dicção e oratória, gaguejando, ou simplesmente pensando antes de falar a próxima frase. E ele mantinha-se firme, round após round.

Um dia, que começou como qualquer outro, eu escovei os dentes como em qualquer outro, foi o dia em que o Muhammad Ali do telefone lambeu a lona, foi muito mais que um beijo. Eu, que já estava com um excelente estoque de fitas - todo mundo me perguntava o que era aquilo, eu dizia que estava fazendo umas coletâneas para ouvir no walkmen - fiz a liturgia de sempre, com os gravadores e tudo mais, até que ele perdeu o fôlego, ou o rebolado, e demorou a responder a última frase.
- Hã... - ele bloqueou, fato inédito até então
- Ganhei! Ganhei!
- ...
- Ganhei ou não ganhei?
- ...
- Tudo bem, chefia, o jogo acabou, pode relaxar o esfíncter.
- Sim, ganhou você.
- Haha, você fala!
- Não foi o que eu fiz até agora?
- Fala normal, quero dizer. Mas isso não importa, já não tenho mais interesse no que você tem ou não a dizer.
- Entendo. Foi bom, até. Eu gostaria de
- Desculpe, não estou interessado. Basta, ok?
- Entendo sua posição. Adeus.
- Adeus.

Foi até um alívio, de certa forma. Os dias estavam mais tranquilos, e aquela pilha de fitas cassete me dava um certo ar de dever cumprido. Só faltava eu ganhar uma medalha.

Dias depois, lendo uma revista sobre os maiores vendedores de livros do país, tive uma idéia daquelas. Por que não transformar tudo aquilo em uma obra de auto-ajuda, pra tirar uma grana? O clima era aquele, uma picaretagem disfarçada de coisa séria, profundo. Bastaria transcrever todos os 'diálogos', bolar uma capa - e um título que atraísse os trouxas como a merda atrai as moscas, e então me dediquei à atividade, fervorosamente.

Depois de algumas semanas, o troço estava pronto. Batizei de 'Drops Diários Para Pensar e Viver', arrumei uma editora, e lancei o livro. Começou a fazer certo sucesso, tive sorte porque alguém elogiou a obra em uma matéria sobre 'sugestões de presente', então as vendas foram expressivas, até dei algumas entrevistas. E entrei no clima, claro, como se tudo aquilo eu realmente tivesse pensado e parido, escrito e tal. Um conhecido me sugeriu fazer uma sessão de autógrafos, coquetel, aquela palhaçada toda. A editora achou uma boa idéia, bancou os salgadinhas e tal. Apareceram vários amigos, muitos chatos, e, como diziam os Skrotinhos do Angeli, "homem com cara de babaca, mulher com cabeça de mosquito, e viado pra cacete"! Tudo bem, tudo aquilo era grana, então foda-se. Muitas velhinhas vieram, pediam que eu assinasse para o neto, ou para o filho, ou para o marido, ou para a vizinha. A mão estava até cansada de escrever mais ou menos as mesmas coisas, e meu nome. Pois no meio daquele povo, aparece um senhor bem velho, encurvado e tristonho, que me olhou como se eu o conhecesse! Eu o espiei na fila com o rabo do olho, eu já estava cansado e meio zonzo até, de tanto ser cumprimentado e tal. Na vez dele, se apresentou:
- Não se lembra de mim?
- Ahh... não.
- Você não mudou nada, desatento desde os tempos do colégio. Lembra agora?
- Não, eu na verdade...
- Fui seu professor na oitava série.
- Não acredito? Você era aquele que lia citações no começo de cada aula?
- Claro, por que acha que estou aqui? Sempre fui um fã de frases, e quando li sobre seu livro fiz questão de lhe prestar uma homenagem! Assine aqui pra mim!
Depois que assinei, já estava ali há horas, me despedi do meu ex-professor - que coincidência hein? - e pedi licença aos seguintes da fila para ir ao banheiro. Meu professor me puxou pelo braço:
- Também quero ir ao banheiro, mas não sei onde fica. Posso lhe acompanhar?
- Pode - concordei meio a contragosto, detesto ter que fazer sala para ex-conhecidos, ex-amigos, parentes distantes, essas coisas
Fomos ao banheiro, o evento acontecia numa casa antiga reformada, fomos achar o banheiro no segundo andar, totalmente vazio àquela hora. Entramos juntos. Parados lado-a-lado para mijar, em pé naquele negócio de metal que parece um buffet vazio - ô situaçãozinha constrangedora. O professor me olhou, e rapidamente puxou uma faca de cozinha do bolso do casaco, encostando - justamente! - no meu pau, que eu segurava para o xixi. Não fui capaz de dizer nada, nunca tinha sequer imaginado uma cena daquelas.
- Você ganhou dinheiro com o livro? - ele me interrogou, firme
- Como é que é? - eu perguntei, sem saber se continuava com o jato de urina, ou parava. Na dúvida, parei.
- Você ganhou dinheiro com a droga do livro?
- S-sim.
- Quanto?
- Não sei quanto de cabeça, mas deu pra pagar as contas. E assinar um contrato para outros volumes.
- Dê o resto do dinheiro para a caridade.
- C-como?
- Você é surdo ou burro? Dê o resto do dinheiro.
- Está bem.
- Vou estar de olho, não bobeie.
- Arrã.
Ele desencostou a faca de meu pênis, com mão surpreendentemente firme para um velho. Toda a cena era surpreendente, na verdade.

- Eu vou indo - ele disse - vou estar de olho.
- T-tá.
- E mais uma coisa - ele falou, com voz pausada e firme, recitando - "o jogo acabou, pode relaxar o esfíncter".
E saiu pela escada abaixo, me deixando com o pau ainda na mão.
marcio de almeida bueno - 11:17

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13.12.04



CAPÍTULO 6
(Daniel Barbosa)

Quando ia descendo as escadas uma voz surgiu ao meu lado:
-Volte, venha até a sala 666.
De onde vinha aquela voz? Sei lá, olhei para tudo quanto era lado e não vi ninguém. Aí que caiu a ficha: o diabo da voz vinha da Tatuagem. E falou de novo:
-Vem cordeirinho, suba até o 666.
Cordeirinho?Como assim?
Que mané cordeirinho que nada, eu fui foi dando no pé. E a voz falando:
-Vamos cordeirinho bom, suba até o 666.
Que merda, já tava dando no saco. Eu consegui andar uns dois quarteirões com aquele saco de voz falando, e por mais que eu apertasse o dedo contra a palma da mão a merda não mudava:
-Volte para o seu rebanho.
-Venha para a mamãe.
-Aqui é seu lugarzinho quente.
-Venha para os meio das pernas do seu ninho de amor fraternal.
Não aquentei, gritei no meio da rua:
-Mas que porra, será que vou ter que ir nessa droga de 666 para você parar de falar é?
-Não brigue com a mami.
Não aquentava mais, comecei a voltar e caminhar em direção ao 666. Talvez se eu fosse lá, sentasse, tomasse um café, fizesse um cafuné na cabeça da mami doidona, ela parasse de perturbar.
Ela vinha o caminho todo falando:
-Mami ama seus cordeirinhos.
Voltei e entrei na tão falada sala 666.
Estava escuro, atrás de uma mesa estava sentada a minha vizinha, a que tirou uma carta do realejo, e ela ainda parecia morta, só que pior, os olhos não estava nas órbitas. Os olhos estavam em suas mãos e ela ficava tipo fazendo malabarismos com eles, mas havia 3 olhos. Meu Deus, de quem era aquele outro olho? Ou era o olho do cu da doida?
-Voltou para a mami?
-Você é maluca é? Que demência de história de “mami” é essa?
-A mami só quer cuidar de seu bebê.
-Hein?
-Vem aqui, a mami quer tirar de você o que te faz mal. O que faz meu menino bom ver coisas feias. Mulheres nuas, mortes e mulheres com tatuagens na cintura. Nada disso, meu menino não pode ver essas coisas – E num é que a velha se levantou com uma faca enorme daquelas de tratar porco? Pense no medo que fiquei.
-Calma, dona...-esqueci o nome da velha – Calma. Eu te explico tudo.
-Não há nada a ser explicado. Eu já ouvi você assistindo filmes imorais.
Não sabia o que dizer, falei algo só para ganhar tempo:
-E essa tatuagem bonita, onde você conseguiu? – mostrando a minha tatoo no braço.
-Eu comprei pela tv. Não é linda?
-Realmente é muito linda. Você já viu a tatuagem que Hebe fez na virilha?
-Hebe? Não acredito. Na virilha?Meeeeeeeennnntira!!!!
-Sério!ela tatuou o rosto de Silvio Santos perto da periquita!
-Ô mentira!!!Passou em que canal?
-Na Globo, minha filha, passou foi na Globo!
-Na Glooooooooooooooobo????Mentira do cão!!!
-É sério, ligue a tv para ver se tá passando, pode passar a qualquer momento em edição extraordinária.
-Deixa eu ver.
Ela caminhou até a tv no quarto escuro e ligou o troço. Tinha um cara com um tapa-olho e uma mulher com tanto brilho na boca que mais parecia que alguém tinha acabo de ejacular em seus lábios. O cara disse:
-Ela não presta, é uma puta duma vadia do karalho!
-não tou dizendo, ele tá falando de Hebe.
-Meeeeeeeeeennnnnnntira!!!Sério?
-Preste atenção.
A velha ficou olhando com os olhos sem órbitas para a Tv, sentada no chão como uma criança, e segurando o cutelo sobre as pernas.
-Peraí que eu vou aqui na banca de revistas comprar o jornalzinho da tv, nele tem todas as notícias sobre a tatuagem de Hebe.
-Meeeeeeeeeeeeeennntira!!!!
A mulher só falava isso. Eu fui saindo devagar, na ponta dos pés. Quando já tava quase fora do prédio vi a velha grita:
-Meeeeeeeeennnnnnnntira!!!!Que tatuagem linda, mulher!!!!
Será que Hebe fez mesmo uma tatuagem perto da buceta?
Como eu soube que ela fez essa tatuagem se faz dias que não assisto tv? Será que virei algum tipo de vidente fofoqueiro? Ou sei lá, meu cérebro está recebendo mensagens subliminares da Tv? Porra, espero não virar um Leão Lobo da vida.



Daniel Barbosa - 22:47

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9.12.04


CAPÍTULO 5
(Marcio de Almeida Bueno)

Pois é, minha sorte poderia mudar. Achar algo, ou alguém, que desse rumo à minha vida. Uma boneca inflável não é exatamente um companhia para as horas que a gente está com o pé enfiado na merda. E eu nesses tempos estava chafurdando na matéria fecal, às vezes só dava para manter o nariz fora da 'água'. E a Kétlyn já estava meio gasta, e os orifícios de utilização noturna já estavam, digamos, cheios de 'queijinhos'. Não estão apresentados? Kétlyn, minha boneca inflável.

Eu já tentei arrumar dinheiro de todas as maneiras. Digo dinheiro porque parece ser, numa análise final, o que primeiramente iria me alavancar, e que no final das contas ia me dar algum conforto. Melhor estar melancólico à frente de uma lareira do que fudido e devendo o aluguel, sem perspectivas de pagar ou fugir. O fato é que já queimei o cérebro pensando modos de ganhar dinheiro, do tipo 'torneira de dinheiro'. Comprei um jornal, de certa feita, e passei a fuçar nos classificados. Achei um anúncio que dizia algo tipo "fique rico envelopando correspondências, trabalhe em casa e adquira sua independência, envie um cheque para o endereço...", sempre ouvira falar nesse tipo de atividade, achava que era lenda urbana, como a história da cobra na seção de alfaces do supermercado, crocodilos na tubulação de esgoto, e do diabo que aparecia para dançar num baile qualquer. Pensei bem, e cheguei à brilhante conclusão (como se alguém admitisse ter chegado a uma péssima conclusão) que devia dar uma chance à chance. Eu devia mandar um cheque para um endereço, mas eu nunca tinha dinheiro sobrando, o que dirá suficiente para dar para um banco tomar conta.
- Tio, posso tomar conta?
- Sim, mas cuidado aí hein? Esses 10 mil me custaram uma fortuna!
- Não se procupe, tenho garantia do Governo. Aceita um cafezinho? Quer dizer, depósitos abaixo de 15 mil não dão direito a cafezinho. O próximo da fila, por gentileza! Quem já foi atendido dá a vez, vamos colaborar.
Bancos eram mais ou menos assim.

Fui no cara da banca de revistas, eu era freguês habitual (como conseguia comprar as revistas é assunto para outro capítulo), tava com o valor do cheque no bolso, uma espécie de milagre, pedi pra trocar por um cheque.
- Você quer que eu troque um cheque seu de quanto mesmo?
- Não, eu lhe dou o dinheiro, você me dá um cheque!
- Peralá, isso é coisa de agiota, factoring, banking etc. Não posso dar um valor agora para você me pagar mais tarde, mesmo que tenha juros, e tal.
- Não chefe, o dinheiro está aqui - mostrei as notas, com a mesma firmeza que mostrei o pau para o médico no exame de alistamento militar, puxando a pele para trás - está vendo? Eu preciso é de um cheque, um pagamento que precisa ser feito em cheque, ficou claro agora?
- Olha, você é meu cliente, meio maluco mas é meu cliente, mas se tiver algo a ver com dívidas de jogo ou drogas, me inclui fora dessa.
- Não é não, você pode inclusive fazer o cheque nominal, deixa eu ver aqui... é 'Personal Marketing Direto Representações Ltda', a tal empresa.
- Tá bom, toma aqui o cheque e me dá o dinheiro. Nunca vi isso, mas tudo bem. Só segura uns dias que eu tô sem saldo tá?
- Tudo bem, ainda vai pelo correio. Chegou a Rudolf?

Mandei o cheque, conforme as instruções. Dez dias depois recebi uma carta me parabenizando por ter decidido mudar minha vida etc. Resumindo a palhaçada toda, eu deveria criar uma pirâmide da felicidade, aquela de mandar 1 real para três pessoas, e depois de uma semana receber 200 mil reais, e tal. Meu trabalho seria ficar envelopando as correspondências, porque se eu mandasse para cada vez mais pessoas, maior a minha chance de receber dinheiro fácil. Ok, mandei umas 100 cartas, deu um trabalho desgraçado lamber todos aqueles selos, e depois de uma semana eu recebi OITO REAIS. Pelas minhas contas, eu deveria estar perto dos dois milhões e meio. Mas o que recebi depois dessa fase inicial foram três cartas devolvidas, e não passou disso. Algo estava errado, e me senti um idiota. Pensei até em mandar suspender o cheque, mas nem era meu.

Resolvi tirar a história a limpo. O endereço para o qual eu enviara a grana era uma caixa postal, claro. Sigilo absoluto. Mas era da Agência Central dos Correios, era só eu ficar zanzando por perto que eu iria ver alguém indo buscar a correspondência. Fui até a tal agência, era bem movimentada, então eu não chamava a atenção. Preenchi envelopes, colei selos, fingi estar escrevendo longas cartas, tudo de olho na caixa postal número 4558, a bendita. Duas horas depois de beber água nos bebedores, pedir informação a diversos funcionários e ajudar uma velhinha que tinha esparramado suas coisas no chão, vi alguém abrindo a caixa 4558. Cheguei junto, como se estivesse procurando algum número, e vi a pessoa recolhendo dezenas de envelopes como o meu. Era uma mulher de cerca de 50 anos, cara de professora chata, cabelo preto tingido, realmente uma visão ingrata. Disfarcei, disfarcei (a arte de ficar observando o ridículo das outras pessoas, sem ser notado). Segui a velha fodida até seu 'escritório'. Fingi que procurava alguma sala específica para minhas necessidades - o prédio era decrépito, e haviam três 'casas de tolerância'. Às vezes, ouviam-se gritos e barulhos de portas batendo. A mulher entrou em uma empresa chamada Rolasul Rolamentos, umas letras bem velhas impressas no vidro da porta. Entrei logo atrás, ela estava guardando os envelopes na gaveta de uma escrivaninha bem velha, daquelas de madeira escura, que deveria ser sua mesa de trabalho. Tinha uma sineta no balcão, como nos hotéis de beira de estrada. Tlim-tliiim!
- Oi, pois não, veio pagar a pasta dos GF5?
- Hã... como?
- Não é o Moacir que te mandou vir aqui pegar as notas de empenho? Ah, achei que seria. Tosse-tosse. O que era para você então?
- Personal Marketing Direto Representações Ltda...
- Como?
- Personal Marketing Direto Representações Ltda - repeti, como se dissesse uma senha para o vigia de um quartel-general.
- Não é aqui não, fala com o zelador lá embaixo, porque andou mudando um pessoal novo para o sétimo andar e...
- Eu vi a senhora pegando as correspondências na caixa postal dos correios.
- Você estava me seguindo? Se é algum tipo de tarado, saiba que sou uma mulher séria e meu primo é Delegado!
- Eu mandei dinheiro para a sua caixa postal, e vi a senhora recebendo muitos envelopes como o meu!
- Aquela é a caixa postal da empresa e se o senhor não se retirar eu chamo a polícia! - ela gritou, e correu colocar a mão embaixo do tampo de uma das mesas, como se houvesse algum botão escondido para essas emergências.
- Calma, senhora, eu vou saindo, não quero confusão...
- Uma mulher na minha idade! Não tenho mais saúde para essas coisas! Tarado! Tarado! - ela estava se descontrolando.

Fechei a porta do escritório, antes que alguém ouvisse o barulho, pulei por cima do balcão e derrubei a mulher no chão. Não havia botão nenhum embaixo da mesa, claro. Conheço esses truques. A velha esperneava e tentava me morder, foi preciso uma bela porrada nas fuças para ela parar e organizar as idéias. Me assustei com minha própria violência, ela me olhava arregalada. Sussurrou:
- Tranque a porta.

Eu obedeci, automaticamente, em um pulo só. estava apavorado que aparecesse o zelador ou sei-lá-quem. Quando me virei, a velha tinha desabotoado a blusa, exibindo um sutiã bege bem encardido:
- Devagar, garotão, gosto de homens que me fazem saber onde é meu lugar... - a mulher me olhava de forma hipnotizante - Todos esses anos trabalhando neste prédio me fizeram saber do que os homens gostam... Ainda tenho meu fogo...
- Eu não quero nada, eu só queria o meu cheque de volta, pelamordedeus!
- Me explora, me bate na cara... eu sempre sonhei em deitar neste balcão... e tocar a sineta pra valer... - ela parecia anestesiada, e foi tirando a saia e subindo no balcão encardido, andando de quatro.

Toc! Toc!

Cristo! Alguém batia na porta! Me fudi de vez! A velha parecia estar em êxtase, olhou para a porta como se os desejos dela tivesse sido atendidos, e mais alguém entraria na festa. As batidas eram insistentes, numa fração de segundo eu imaginei o zelador entrando, tomando um susto, gritando por socorro, alguém chamava a polícia, eu descia as escadas correndo, o porteiro de uma das casas de massagens do prédio tentava me segurar, eu me desvencilhava e rolava um lance de escada, me erguia e voava até o térreo, chegando na porta alguém gritava "é esse o tarado!", dois policiais apareciam do meio da multidão, me imobilizavam, um camburão já estava me esperando, eu era jogado para dentro, as sirenes bombardeavam, eu no escuro, em pânico, chegando na delegacia mais próxima, imaginando já como seria minha curra pelos outros detentos, me sentindo a própria Kétlyn e...

Eis que a pessoa gira a maçaneta e a porta abre - tão velha que era a tranca já não fechava direito - e entra um adolescente, officeboy, de boné e pastinha preta na mão. Eu me joguei na porta, empurrando ele para fora com o corpo.
- O que você quer? - falei firme
- Eu.. a... o Moacir mandou eu pra... é Rolamentos aqui? Eu... - ele estava muito nervoso, sacou que tinha chegado na hora errada.
- Isso mesmo! Você está atrasado né moleque?
- Desculpa tio, eu fui no outro andar sem querer e...
- Foi ver as mulheres né? - ele ficou vermelho, mais do que já estava.
- Não tio, não fala nada não, tio! O Moacir é vizinho do meu pai, ele me manda embora! - o boy estava apavorado.
- Tudo bem, eu não falo! Você veio pegar os papéis né? Então entra aí dentro que a mulher vai te atender no balcão, tu entra aí e não sai sem os papéis dos GF5, que têm que ir pro banco ainda hoje tá moleque? Se ela não quiser carimbar pra ti na hora, insista! - empurrei ele para dentro, tirei a chave que estava na porta, ele já viu a velha deitada no balcão, tirando a meia-calça, fechei a porta, tranquei por fora e ainda gritei, enquanto descia as escadas correndo:
- Se precisar chamar o zelador, toque a sineta, com força!

marcio de almeida bueno - 11:53

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7.12.04



CAPÍTULO 4
(Daniel Barbosa)

Pense no tédio que eu tava, em casa, às nove da noite vendo o "pograma" do Ratinho. Phoda. E a tattoo não parava nunca de tocar. Pelo menos eu já sabia como mudar de música (basta apertar o dedo indicador contra a palma da mão) e também como passar músicas do computador para a tatuagem (enfio o dedo na entrada USB do computador e todas as músicas que estiverem no PC passam para meu corpo. Não me pergunte como). Mas já estava cheio de ouvir música também (para aumentar o volume é só apertar o polegar contra a palma da mão, para diminuir o mindinho). Nem mesmo dinheiro para um filminho pornô eu tinha (nem VHS, que é mais barato). Todas as revistas e livros na estante já tinham sido lidos várias vezes (A Metarmofose de Kafka: lido 5 vezes, Os Frutos Dourados do Sol de Bradbury: 4 vezes, e por aí vai). Quando fui buscar água na geladeira (a garrafa de água fazia par a uma pilha enferrujada) a idéia do realejo surgiu em minha mente. Tinha aquele lance da tattoo, aí eu colocava um macaco no realejo para tirar as cartas e dizia que o som vinha direto do cérebro do primata, ia ser maior marketing para divulgar meu produto. Só precisava de um macaquinho treinado, algumas cartas, um realejo e uma mesa velha. As cartas eu mesmo fiz , tirando os textos de um site que achei na net. A mesa seria a da cozinha de meu apartamento. O macaquinho treinado eu troquei pelos vinis Racional 1 e 2 de Tim Maia. E o realejo eu roubei de um moleque na rua. Eu sempre via ele brincando com o realejo quando vinha do trabalho, mas acho que ele era meio mongolóide, acho que imaginava que o troço era casinha para seus bonecos, ou coisa assim. Como ele não utilizava o produto direito, não fiquei com culpa por ter roubado o brinquedo de uma criança. Eu sei, minha mãe sempre dizia que "papai do céu sempre está te vendo fazer coisas feias", mas ok, sempre soube que tudo não passa de um imenso Big Brother. E afinal, não sou católico mesmo. Na verdade eu não sou porra nenhuma. O que não deixa de ser alguma coisa, né?

Aí peguei os troços e levei tudo para a frente do meu prédio. O macaquinho não parava quieto, às vezes queria ir embora, ficava esticando a corda que amarrei ele a mesa. Eu o estava alimentando com Fandangos, ele adorava o troço. Depois de uns 20 minutos surgiu um velha que mora no mesmo andar que o meu e perguntou:
- Tá vendendo o que aí?
- É um realejo.
- E esse negócio de realejo também toca música é?
- Não. A música vem da mente do macaco. Ele pensa em alguma música que já ouviu antes, e ela toca.
- Hé, hé, que mentira. Macaco que toca música, ô mentira.
- Sério. Esse macaco eu peguei numa viagem à Jamaica. Chegue perto e veja se o som não vem dele.

Ela chegou perto e eu também, com o braço bem próximo do ouvido dela.

- Pior que parece que o som sai dele mesmo. Então faz o seguinte, pede para ele tocar outra música.
- Ele vai tocar agora 'Leãozinho' de Caetano Veloso.

Como eu já tinha ouvido as músicas dias e dias sem parar, eu já sabia a ordem de todas. Foi só apertar o indicador na palma da mão, e começou a tocar. A velha fez cara de surpresa:
- E não é que mudou mesmo?
- Ele também sabe tira uma carta com a sua sorte do dia. Ele sempre acerta.
- Como assim ele sempre acerta? Não sei porque um macaco feio desses saberia minha sorte!
- Mas você não sabia que o homem veio do macaco?

Não sei porque eu disse isso, inventei na hora. Ela parou, pensou e disse:
- Ah, explique. Aí sim! Quanto é?
- Dez reais.
- Carinho hein? Mas tudo bem, estou de bom humor hoje! Quer ver? Vai bichano, tira a minha sorte.

"Bichano é para gatos, sua véia burra", pensei. O macaco ficou tipo tirando lasquinha de minha mesa e nada. A velha olhava para ele e depois para mim. Bateu com o pé no chão, bateu palmas: nada. Eu peguei um Fandangos do saco e coloquei sobre as cartas que tinha feito, o macaco pegou o salgadinho e comeu. Depois ficou fuçando nas cartas, levantou uma no ar como um nazista saudando Hitler e começou a gritar mostrando os dentes. Eu peguei da mão dele e li com voz de Cid Moreira naquela narração da Bíblia:
- "Vive tranqüila, pois alcançarás fortuna nas tuas empresas. Terás sorte com o número 094".

Viagem pura. Tirei isso de um site. ah, eu já disse isso. A velha ficou toda feliz e disse:
- Vou jogar esse número no bicho!!!
- Jogue mesmo, é capaz de ganhar.
- Obrigado rapazinho, você é um amor! - e me pegou pela camisa e deu um beijo gorduroso no meu rosto. Phoda. Que nojo. Ela tinha um hálito podre. Mais muito podre mesmo, parecia que tava morta, ou até pior que isso.

Foi embora. Fiquei só. Falei:
- Vai macaquinho babaca, tira minha sorte.

E não é que o sacana tirou mesmo:
- "Não sejas ciumento, se quiseres ser feliz. Já foste muito enganado por antigas namoradas".

Só se foi a minha boneca inflável, que é minha namorada desde os 13 anos de idade. A música que estava tocando acaba, e entra 'Labirintos Negros' de Sergio Sampaio. Phoda.

Daniel Barbosa - 18:27

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1.12.04


CAPÍTULO 3
(Marcio de Almeida Bueno)

Bem, capitalizar é o lance. Uma tattoo que toca música, ou acho que toca. ACHO que tenho a tal tatuagem, também. Mas tchudjo bem, tenho mais coisas para me preocupar, até porque já tive alguns flashbacks no passado, coisas reais que parecem reais mas que não são reais, diacho! Cores líquidas que resolvem flutuar em minha frente na hora de dormir, zumbidos persistentes, cheiros que dá para sentir o gosto, cores que têm peso, psicodelias assim. Uma vez eu tava na casa de um amigo, o assoalho era de madeira, pareceu de repente que a água fervente de uma chaleira caía em cima de minha perna. Eu dei um puta pulo, as prateleiras da casa tremeram, cheias de copos e travessas, o chão não era muito firme. Como diz a música do Defalla, "flashback, flashback / putz / agora sim bateu". Ou algo assim.

Então história de pele pintada que toca música parece nova invenção de japonês. Aliás eu sempre vejo notícias do tipo "japoneses inventam chip que substitui o olho", "cientistas japoneses descobrem o gene que causa o pau pequeno", mas nunca vi essas invenções na vida real, elas nunca chegaram até aqui. Parece que os caras produzem apenas, e tão somente, para as revistas científicas e para a seção de ciência & tecnologia do site da BBC, que todo mundo copia. Pelo menos no mundo que EU frequento essas coisas nunca chegaram, só mesmo o cd e a pomadinha japonesa, ou chinesa. Quer dizer, ACHO que a pomadinha japonesa é invenção dos japas, e confesso que não sei para que serve. Ou será peidinho chinês? Lembro dos anúncios em revistinhas de sacanagem, aqueles dizendo "conquiste a mulher dos seus sonhos", o Procon da época não atingia as revistas pornô. Tive sempre uma curiosidade extrema, poder encomendar todos aqueles produtos, bomba para aumentar o pênis - uau!, perfume canino que atrai as mulheres, camisinha com sabor, sunga com zíper na frente e atrás - epa!, boneca inflável - "a adorável Soninha, a mulata" e tal. Acho que se ganhasse na mega-sena eu iria mandar buscar todas essas coisas, pra começo de conversa. Inclusive o anúncio da Soninha apresentava as vantagens da mulher inflável, "não enche o saco, não passa doença, não pede dinheiro, não fica um bucho". Eu ficava imaginando o cara chegando em casa, 'usando' a revista na cama, e aí pensando nas vantagens oferecidas, uma mulher que não pede dinheiro, não enche o saco. Lembro de um prolongador do pênis, uma espécie de continuação feita de silicone que o cara encaixava na ponta, aí ficava com uns bons 10 centímetros a mais, o que para um pré-adolescente como eu se constituia em uma meta de vida. O mais bizarro era uma camisinha - reutilizável - para a língua, o cara encaixava um troço de borracha na língua, cheio de saliências, e prendia as hastes nas orelhas - é sério, não se brinca com essas coisas. A mulher que conseguisse segurar o riso, fingindo que o homem não estava ridículo, devia alcançar os píncaros do prazer. Depois do uso, dava para lavar e usar novamente.

Andar de ônibus era legal, até. Observar as pessoas, e havia uma pessoa em especial que eu procurava, era a pessoa desconfortável consigo mesma. Se arrumando a roupa o tempo tudo, absurdamente encabulada, com incríveis tiques cada vez que, digamos, precisasse dar lugar ou passar na roleta. Se alguém perguntasse as horas, a pessoa respondia, assustada, e depois ficava espiando o interlocutor com o rabo do olho. Disfarçando, disfarçando. Tem uns que olham para todo mundo cada vez que entram no coletivo, só de nervoso, como que para se certificar da presença dos outros passageiros. "Você está me vendo, eu estou vendo você, certinho então, ok, positivo". Tem os que comem disfarçando, como se ninguém visse que a pessoa está pegando bolachinhas recheadas da sacola - humm, que delícia - , e como se alguém estivesse preocupado com isso, alguém fazendo um lanche três bancos à frente, em um ônibus lotado. Indiferença, eis a chave. Uns comem como se estivesse em transmissão ao vivo, em frente às câmeras da tv, a audiência bombando, querendo mostrar 'educação', como se comer educadamente fosse mastigar com receio, engolindo rápido, quase pedindo desculpas. Tem gente que merece uma sacudida para perder as paranóias.

Desci do 'ôins' duas paradas antes, só para caminhar um pouco, e passar numa banca de revistas que freqüento, nem que seja só para olhar a capa das importadas. Os preços são indecentes, muitas vezes, e meu saldo no bolso da calça idem. Tenho saudade dos pacotes de figurinhas, a gente ia a bancas longínquas para pegar lotes diferentes, porque no mesmo local os cromos eram mais ou menos os mesmos, sempre repetidos. Tinha de jogador de futebol, super-herói, Thundercats, autocolantes etc, e havia uns álbuns bagaceiros também, sem nenhuma identificação, que eram vendidos só em bares suspeitos, e que davam prêmios altos. Você completava a figura da panela de pressão, ganhava uma panela de pressão, completava a motocicleta, ganhava uma motocicleta. Não havia nenhum endereço para ir buscar os prêmios, e ainda havia a lenda que o dono da bodega tal pagava mil reais por alguma figurinha que faltava para fechar o álbum - o que nos leva a outra lenda, de que os prêmios só poderiam ser retirados se a gente completasse todo o álbum. Nunca soube de alguém que tenha ganho alguma coisa que valesse a pena. Uma espécie de Carnê do Baú que não deu certo. Eu seguia com minhas figurinhas repetidas.

marcio de almeida bueno - 21:36

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arquivo morto


Livro sendo escrito a duas mãos - claro, a pessoa só escreve com uma das mãos - por Marcio de Almeida Bueno e Daniel Barbosa. Ambos são militantes do underground e da contracultura desde o final dos anos 80, e há cerca de uma década fazem trabalhos conjuntos - poesia, composições musicais, histórias em quadrinhos, fanzines - à distância, já que Marcio mora no RS e Daniel na Bahia. ( www.falenciafraudulenta.hpg.com.br ) ( www.roquetriste.blogspot.com ) ( danielbarbosa.blogspot.com )