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mútuo



30.11.04


CAPÍTULO 2
(Daniel Barbosa)

Já eram umas 3 da tarde quando eu resolvi largar um pouco o trampo e ir tomar um cafezinho. Comecei a ouvir uma canção estranha. Algo meio mantra, com um fundo trip hop, e só repetia a frase "Mais vale um passarinho na mão do que dois no ânus". Porra, de onde vinha esse som? Troço louco, aí notei que o som vinha de perto, ou melhor ainda, o som vinha de meu corpo mesmo. Ahn, como? Pior, a porra do mantra hippie electro vinha de minha tatuagem. Sério, o som saída direto daquelas linhas. Devia ser algum tipo de tinta nova no mercado, sei lá. Algo como "compre a nova tinta musical, vc pode pintar e ouvir sua canção predileta ao mesmo tempo". Cool não?

Agora só preciso saber como mexer no dial para mudar de música, sei lá, colocar uns mp3 do Sonic Youth. Eu faria sucesso com a mulherada, tipo "o cara que já vem que trilha sonora", Descolar umas canções do Barry White. Ou até mesmo descolar uma graninha como trio ambulante. Ou até mesmo animar umas festas tecno como Dj Body Musik.

Daniel Barbosa - 23:07
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CAPÍTULO 1
(Marcio de Almeida Bueno)

Acordei de sobressalto. Fazem dias que não durmo bem, sonhos confusos e opressores, o travesseiro cada vez mais quente, e o ar do quarto, abafado. Fui dar aquela mijada básica, caminhando zum-zum até o banheiro, os demônios do meu sonho parecem fazer parte do ar, uma fumaça cinza ao redor de tudo, é só ignorar e eles vão embora. Olá pau, que bom que você nunca me abandonou. Ahhhh... que alívio. Uma boa mijada pode ser até melhor que uma ejaculada mediana, basta pensar em algo bom. Gosto de mijar mirando no desinfetante, naquele tijolinho cor-de-rosa ou azul que fica pendurado dentro do vaso. O mijo quente faz ferver o produto, sai uma espuma grossa do desinfetante. Aliás eu sempre pensei sobre a utilidade desses desinfetantes, porque quando a gente puxa a descarga desce tudo, inclusive o perfume e tal. O fato é que estava mijando, de madrugada, em meio ao sono e sonho.

Epa! Quêisso no meu braço, caceta? Uma tatuagem? Não fui dormir tatuado, tenho pavor de agulha, desmaio só de "ir no fundo de uma farmácia", atrás das cortininhas brancas. Mas havia uma suposta tatuagem, como diria um advogado, no meu antebraço esquerdo. Uma bola com uma 'órbita' ao redor, como os anéis de Saturno, um desenho bem simples. Parecia um planeta com a trajetória de um satélite ao seu redor. Não é o desenho que eu escolheria para uma tattoo, se tivesse que fazer, à força. Mas tudo bem, tudo bom, deve fazer parte do sonho e do zum-zum. Ah, que mijada gostosa...

Voltei pra cama flutuando, dei uma espiadinha na janela, sempre tive medo de ver alguém antes do amanhecer, parecia que só um fantasma estaria circulando àquela hora, e a basculante do banheiro dava para o fundo de uma padaria, eu ficava fascinado / aterrorizado de olhar para fora, sob aquela luz estranha que antecede o nascente, uma espécie de lusco-fusco invertido, brrr!!! Deitei tranquilo, nenhuma alma sacudindo correntes, vindo me pegar etc... zzzzzzzz.

Dormi bem, aquela espreguiçada básica, hora de ligar o rádio para começar o dia com música, seja ela qual for. Claro, queria que muita coisa tocasse no rádio, mas não toca. Apesar da infinitude de uma discoteca, se pensarmos em termos universais, mp3 e tudo mais, os programadores se limitam geralmente aos "sucessos que todo mundo ouve" e flashback, troços que já foram "sucessos que todo mundo ouve". Aliás os anos 80 foram pródigos em produzir futuros flashbacks, canções até então nojentas, mas que ganharam charme 20 ou 25 anos depois. Muitas tranqueiras viraram cult. O fato é que liguei o rádio numa estação flashback. A música que tocava me lembrava da minha infância, o que era bom, pois eu estava BEM longe da minha infância. Du-bi-dubi-du-bi-dabi-dubi....

Gosto de me vestir no estilo bombeiro, quer dizer, pulo para dentro das roupas, que são sempre as mesmas, e saio correndo para a vida. Tenho pavor de ficar na frente do espelho provando calça e tal. Arre! E o melhor é não ter que escolher o 'traje', escolho uma vez só, ao comprar, e depois compro outros repetidos, e pronto. Jeans, tênis e camiseta preta. Ok, uma preocupação a menos, e o bombeiro-padrão saía de casa. Olá para os vizinhos, um tchauzinho para a simpática velhinha que não sei ao menos o nome. Ela saberá o meu nome? Nada que mude algo, vamos combinar.

No ônibus, lembrei da história da tatuagem e, como em todas as histórias de filmes, ela estava realmente lá. Passei os dedos em seu contorno, ainda estava um pouco saliente, os traços em relevo, um inchaço normal nesses casos. Não me espantei, até porque na minha vida as coisas geralmente acontecem em descargas de pontapés. Alguém deve ter botado boleta na minha Coca-cola e depois me levado dopado a um estúdio qualquer, só pode ter sido isso. Algum palhaço que achou a piada muito engraçada, sabendo que eu tenho pavor de agulhas, picadas, insetos, dentista, anestesias, crianças que choram, crianças que não choram, crianças que comem balas e doces o tempo todo, entre outros itens. Pues fiquei mais intrigado é com o desenho, com sua estranha simplicidade. Geralmente as tatuagens são clichês, como todos os gostos do cidadão médio. Dragão, tribal, índio, mulher, olho, abstrato. Mas o meu parece tirado de um livro escolar de Geografia. É em Geografia que se aprende Sistema Solar, Via-Láctea, telescópio Hubble, essas coisas né? Deveria ser História, porque eu li esses dias que as estrelas que a gente vê na verdade já implodiram há milhões de anos, mas ficam tão longe que demora tanto tempo para a luz chegar até aqui, que só daqui a outros milhões de anos o último raio luminoso vai cessar. Quer dizer, já morreu mas tá tão longe que a gente ainda vê a criança de pé, brilhando. Talvez o próprio Sol já tenha se apagado, e a gente ainda não sabe. Ou deu algum pau cósmico, que só o Stephen Hawking, ou o Stephen King, saberia explicar. Mas do que eu estava falando mesmo?

marcio de almeida bueno - 22:20

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arquivo morto


Livro sendo escrito a duas mãos - claro, a pessoa só escreve com uma das mãos - por Marcio de Almeida Bueno e Daniel Barbosa. Ambos são militantes do underground e da contracultura desde o final dos anos 80, e há cerca de uma década fazem trabalhos conjuntos - poesia, composições musicais, histórias em quadrinhos, fanzines - à distância, já que Marcio mora no RS e Daniel na Bahia. ( www.falenciafraudulenta.hpg.com.br ) ( www.roquetriste.blogspot.com ) ( danielbarbosa.blogspot.com )