Capítulo 22
(Daniel de Araujo Barbosa)
Mais uma vez essa sensação ruim volta. Eu sou o cara das coisas pela metade. No começo é sempre aquele gosto do novo na boca, aquela euforia. Depois tudo se desmorona novamente, sem motivo. Simplesmente desmorona. Perde o gosto. Foi assim na escola, na faculdade, nos estágios, nos empregos, nas amizades, nos namoros, nas verdades absolutas. Na escola as vezes algum professor conseguia acender uma luz, por alguns dias, com um assunto interessante, mas logo logo, iria perder o sabor e tudo voltaria a ser massante. Olhares para o relógio contando as horas para sumir dali, tentativas de fuga, suor frio, sentimento de estar desperdiçando o melhor da vida. Pensamento recorrente. Poderia estar lendo algo descente, estudando algo interessante, não a merda do quadrado do cateto da hipotenusa. Algum desses magos, tipo Alester Crowler, sei lá, disse que todo conhecimento que adquirimos na vida, servirá como moeda de troca no dia do juízo final. Imagina só a cena: dia do juízo final, o mundo todo pegando fogo, demônios e anjos correndo nas ruas, as sete trombetas tocando, Deus perguntando aos incaltos: Você sabe recitar o verbo “admoestar” no presente do imperfeito? Não? Então vá para o inferno. Nessa base.
É que ando tenho sonhos estranhos, taquicardias, suores frios, dormindo mal. Outro dia sonhei, ou melhor, acho que estava delirante meio acordado, meio dormindo, sobre algo do meu trabalho que eu tinha que terminar, eu tinha que saber daquilo, manjar do assunto, e vinha um colega e fazia antes de mim, algo assim, daí isso foi a noite toda. Freud diria: desejo de mostrar serviço. Ou algo do tipo. Na verdade ando meio tenso no trampo, se mostro muito serviço parece que sou um serviçal que se subordina a tudo, que não tem outra escolha a não ser estar ali. Se me mostro mais light, parece que não estou nem ai prá nada. Talvez daí venha o sonho. O desejo de ir embora. A necessidade de respostas.
Uma válvula de escape é do que preciso. Músicas, livros, filmes, quadrinhos, comida, bebida, drogas, televisão , rádio, hobbies,etc. Tenho válvulas que sempre voltam: a pintura, a leitura, a escrita, a música torta. Alguns preferem chamar de arte, eu chamo de muleta, encosto, murada, apoio, norte, sentido para uma vida cinza.
Mas voltando ao assunto sobre fazer as coisas pela metade, tomo como exemplo a faculdade. Queria pacas curso Artes plásticas, tinha sonhos como o curso, imaginava mil coisas, que conheceria pessoas legais, etc. Ledo engano. Lembro como se fosse hoje o primeiro dia de aula, eu com meu caderninho debaixo do braço, deu a hora da primeira aula, vou para a sala e o professor manda a realidade na minha cara:
-Você gosta mesmo de arte, né cara? Na primeira semana de aula quase ninguém vem na faculdade.
Putz, como assim? Porque?Saberia alguns meses depois porque. Porque o curso é uma merda, nos prepara para sermos pintores de merda, ou professores de futuros pintores de merda, ou não ser nada. Fazer o curso por fazer, ter o diploma, e ir fazer outra coisa. Resumindo: perda de tempo. A cor foi perdendo aos poucos, no final do primeiro ano de faculdade já estava no piloto automático, fazendo as coisas apulso, só para passar, ter minha nota e ir embora. A arte não estava ali dentro, estava na rua, nos carros, nos edifícios, nos shoppings, mas não estava ali , dentro da Escola de Belas Artes. Ali estava uma simulação do que pode ser arte, uma demostração, não a própria arte.
Mas uma vez eu queria ir embora, sem saber para onde. Andava a esmo, cansava, andava de novo, em busca de não sei o que. Dobrando mais uma esquina dentro da noite suja da cidade fedorenta. Andando nos bairros onde o carnaval não acontece, longe do centro. Andando em shoppings doentes, paredes doentes, prenhes de desafeto, reclamando atenção pelos dutos de ventilação. Andando em ônibus ranzinzas, em livrarias coloridas, constelações me mostrando que a aventura não mora aqui, é feita de letras negras sobre papel branco. Livrarias ensebadas mantidas por homens sonhadores que estudaram pouco ou não tem condições de manter um bar ou uma vídeo-locadora. Livros são como flores nascendo no asfalto. Não que sejam reais, é como naquele dia que fugi da escola como um detento, como uma cara que todos tinham medo na sala, só porque não estava no clima de encarar horas e mais horas de abstrações e teorias sem sentido. Por isso eu nado a esmo. Os anos vão passando, os dias derretendo em frente aos meus olhos, e não percebo o que estou perdendo. Perdendo dentes, Perdendo pelos, Perdendo o que nunca poderei ser. Perdendo quem nunca fui ou poderia ter sido.
Daniel Barbosa - 17:33
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8.8.08
Pelo menos há uma desculpa para o Daniel Barbosa estar atrasando tanto o próximo capítulo: o Santander Cultural, aqui em Porto Alegre, está com uma exposição de grande porte até setembro chamada TRANSFER, voltada à arte urbana, e diversos trabalhos do Daniel estão expostos. São fanzines e similares dos anos 90, sendo que eu participo de alguns, e em um eu sou co-autor - minha poesia 'Poema de Amor número 65 (Drogado! Drogado!)' foi ilustrada pelo Daniel 'Pastel' e meu nome aparece até na etiqueta da exposição. Ai que chique.
marcio de almeida bueno - 10:30
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9.3.08
Capítulo 21
(Marcio de Almeida Bueno)
Como sempre acontece, eu chego ao fundo do poço - e eu realmente consigo, não é aquele fundo do poço literário, romântico, nem o esquema emo do Orkut. Nada de caras e bocas, maquiagem, som gótico, lágrimas olhando para a lua, ou as paredes do banheiro construindo um cenário charmoso para uma fotografia. Nenhuma inspiração para uma canção suficientemente abrangente, que mexa em cada uma das pessoas que ouve, nem para um texto que no século seguinte seja lido por professores diante de uma classe de alunos bocejantes - alguns prestando atenção, nem um filme blockbuster ou cult, ou uma grande sacada que me manterá em um escritório de publicidade com vista panorâmica da cidade. Este momento é íntimo mas não pode ser compartilhado. É como se sujar sem querer na própria merda, algo que lamentamos e rapidamente resolvemos, e fazemos questão de esquecer o mais breve possível, e enquanto os outros almoçam, tomam cafezinho ou atendem telefone nos lembramos do cheiro, do susto de ver o dedo sujo. Sem poder comentar nada. Como eu comento agora.
O fato é que eu novamente quero reavaliar a minha vida, mudar os pilares daquilo que considero problema, do que está me atrapalhando e apenas me fazendo sofrer - não o prazer masoquista, o glamour da auto-destruição, mas o sofrimento nu, solitário, madrugada a dentro, com suor na testa e mau-cheiro corporal. Sofrimento do desespero, de acordar no meio da madrugada e achar que algo existe de sobrenatural, e está pairando no corredor, ou o sofrimento do remorso, do acúmulo de louça na cozinha, do atraso da ida ao dentista, do medo que o pau não suba nunca mais, que as pessoas virem a cara para mim, na rua - "não lhe dê atenção, ele é louco!". E que não me permite sequer um aproveitamente posterior, como inspiração para um riff de guitarra ou um poema que vai ser a pedra fundamental de uma trepada com alguma garota 'sensível'.
Imediatamente eu comecei a descartar as companhias femininas atuais. Mulheres que eu vejo e me apaixono, já imagino a conversa incial se transformando em uma cumplicidade de vida - amizade, apoio mútuo, confiança total, entrega, costelas abertas exibindo um coração vermelho e pulsante, respingando sangue brilhoso e grosso, amor em formato de desfile com bandeirinhas agitadas no ar, sexo resumindo a unidade perfeita - niágaras de esperma em cada orgasmo, constrangendo os vizinhos.
Mas, na real, eu me apaixono e a pessoa sequer fica sabendo, pois sou apenas, e tão somente, um cara tagarela, talvez até 'alugue os ouvidos', enquanto sonho longe, e acho que aquela que me escuta está sendo devidamente encantada, um canto-de-sereia invertido. O resultado é me ver sempre solitário, dobrando eternas esquinas nesta cidade, mãos nos bolsos da calça jeans, sem sequer ouvir um sonzinho, pois meu walkman - de fita cassete, registre-se - caiu no chão e teve que ir para o lixo. Era um bom toca-fitas Sony preto, muito AC/DC me ajudou a superar as épocas ruins da vida, o companheiro era uma caixinha preta com botões e fios em direção aos meus ouvidos. Volta e meia eu parava de usar, porque estava com chiado na audição. Grande 'Back In Black'... parecia que injetava algum ânimo no meu sistema linfático, no meu pâncreas, ou parecido, com saída pela uretra. E 'ela' nem sabia que era homenageada com uma ereção, masturbação e gozo cósmico.
Então eu pensei em dar um jeito nas coisas, trocar de nome, cortar o cabelo - se bem que lavar o cabelo já seria um avanço, falar com menos ou mais gírias, tentar ser simpático, ouvir mais, ouvir menos, dependendo da situação. Recordo das vezes que eu achava que a trepada já estava garantida, e que a garota linda e bacana, emanando brilho, realmente estava preocupada com a lubrificação das paredes vaginais internais, como eu estava preocupado. Não, ela só queria desabafar que o namorado era um monstro, um bronco, um bruto, e eu parecia suficientemente inocente ou trouxa para ouvir e ouvir e ouvir. Eu só concordava com a cabeça, imaginando o calor molhado e o hálito de patricinha se aproximando da cabeça do meu pau - naquele momento, já preparando um bombardeio estratégico, apenas aguardando ordens superiores. Mas ela se sentia melhor e melhor ao me contar todos os pormenores de como 'ele' era horrível, desagradável, como a humilhava publicamente, desprezava suas idéias, criticava sua família e amigas, e impedia qualquer contato com amigos do sexo masculino. Exceto eu, mas eu não era um amigo, era apenas um bom samaritano com ereção por baixo do jeans surrado, tentando fazer cara de interessado - e essa minha boa interpretação sempre era convincente. Horas mais tarde, sozinho em casa, só me restava uma punheta de alívio, de descarga, direto na privada para eu não melar nada, enquanto a idéia de que 'ela' já estava suficientemente aliviada de sua mágoa, e buscava nos braços broncos e brutos do monstro a proteção e estabilidade masculina que, afinal, tanto queria. Provavelmente estaria tão relaxada e curtindo a cabeça fresca, que acabaria até oferecendo o cu como souvenir, pela primeira vez, ao seu namorado Conan. E faria força para gostar, para agradá-lo.
Enquanto isso, eu ainda buscava um riff de guitarra, um poema perfeito, algo que, como um furúnculo, expurgasse da minha cabeça e do meu corpo a carga nervosa e emocional e sentimental e sexual de revolta que tremia as minhas mãos e pernas se eu acordasse de madrugada, com medo do que quer que fosse que estivesse pairando no corredor.
marcio de almeida bueno - 21:30
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15.8.07
kalma, pessoal, kalma.
marcio de almeida bueno - 11:21
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19.3.07
Capítulo 20
Pindaíba outra vez. Tava desesperado atrás de um trampo. Alguma grana prá comprar uns cigarrinhos melhores do que esse que meu vizinho me dá.Mistral.
Achei um. Trampo, não um cigarro.
Segurança noturna.
Até legal, tava gostando, não fazia nada mesmo, ficava a noite toda sentado em um canto da calçada tomando conta da casa dos riquinhos. De quando em vez dava um apitada em meu apitinho, abria o portão para um fedelho vindo da balada, acompanhava alguém que vinha a pé prá casa, e pronto, o resto do tempo era tentando dormir naquele chão sujo da calçada.
Tava tudo beleza até o dia que Jonervan véio com a idéia dele.
-É o seguinte meu cooligado, ou você ajuda nesse lance ou aparece amanhã no pograma
"se liga bocão" com a boca cheia de formiga - prá quem não é da Bahia, esse é um dos programas
populares daqui, daqueles que expreme e sai sangue.
Eu ia fazer que porra?
Tive que fica na minha. Jonervan sabia fazer o serviço dele.
Era um segunda feira,a cidade estava silenciosa. eu tava quase dormindo,umas 3 da matina, quando
o sacana chegou com a cara de bicho dele e disse:
-Fique na sua, é só ficar na sua.
Eu fiquei.
Ele estava com Tito e Jorley. Começou serrando o cadeado. Foi rápido, entrou na garagem e começou a tirar a proteção do vidro traseiro do Pagero do dr. Wendel Mendes Ferreira, dono de um rede de farmácias da cidade. Tirou fácil também a proteção, o sacana já tem as manhas. Entrou no carro enquanto tito e Jorley esperavam do lado de fora. Não sei prá que tanto cara prá roubar um Cd player. Jonervan já tinha experiência na parada, não se ouvia nada. Uns 3 minutos depois ele aparece sorrindo passando o aparelho para Jorley.
no segundo seguinte ainda tá sorrindo, mas com um furo bem no meio da testa.
Da janela o Dr. Wendel dispara outro bala, com o nome de Jorley gravado nela. jorley da Silva. Só isso,
A única pessoa que eu conhecia que só tinha um único sobrenome.
O tiro também acerta na cabeça e ele cai como um daqueles bonecões de recife, manulengo, magulengo, sei lá como é o nome daquelas porra.
Tito tenta correr e o Dr. Wendel dispara, na perna:
-Aimeupaidocéu, tou fudido, toufudido, toufudido,toufud...
O outro tiro vai na cabeça. Tava com medo que meu velho 38 estive quebrado, mas funcionou que foi um beleza.
-Porra, esse dr. Wendel é foda!-Mumurei comigo mesmo.
Ele abriu a porta e saiu:
-Ai pra você ó - E colocou 500 conto na minha mão.
-Eu não falei ao senhor que não era prá deixar os sacanas gritarem?
-Ah, mas sem barulho não tem graça né não?
Daniel Barbosa - 09:09
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11.11.06
Capítulo 19
(Marcio de Almeida Bueno)
O bacana de tudo é poder andar pelas ruas desta grande cidade, onde sou apenas mais um, apenas um registro contábil, um código da Receita Federal, um passageiro a mais no ônibus, um ser sem rosto e sem compromisso, misturado à multidão, disfarçado de mim mesmo. Só assim pra chutar da memória os remorsos, os momentos de tensão, o nervoso acumulado, a vontade constante de comprar uma motoserra e sair usando nos compatriotas. De maneiras que a válvula - não sei onde ela fica, provavelmente no ânus - solta a pressão na hora que consigo dar uma caminhada, atravesso ruas, passo por vitrines sem olhar - não é preciso, a mim basta saber que algo está lá, cruzo com outras pessoas também sem perceber ou ser percebido.
Um dia desses estava no ônibus, ouvindo FM do celular, o outro ouvido sem fone, atento e tenso, como o gato Barney dormindo mas 'no bico', sempre pronto a dar um pulo, por mais relaxado que esteja. Aliás essa é a maior virtude dos gatos - além de serem indestrutíveis. Pois então um chato sentou ao meu lado - os chatos sempre sentam ao nosso lado, e quanto maior for a viagem ou mais apertado o banco, mais eles se esforçam para corresponder a nossas expectativas.
- Calorzinho d'sgraçado hoje hein? - falou o chato, tentando ser casual ou simpático.
- ... - resmunguei, já olhando para cima, pedindo proteção divina.
- Mais diz que vai'squentá'inda mais! - o chato tinha uma agradável queda pelo som da letra 'i', que enfiava em todas as palavras, unindo sempre que possível.
- Arrã - respondi com uma boa vontade daquelas.
- Pois o amigo sabe - nisso eu já era 'amigo' - quieu tava ontem voltando do Paraná, aí encontrei uns parentes que eu não via há uns vinte anos, como tavam crescidos os meninos, i o véio já 'tava mais pra lá du qui pra cá, tomei um café com eles i fiz um pouco de sala, sabe como é parente, adora dar conversa e mostrar álbum de fotografia. E uma das fotos era uma raridade, uma foto de disco voador, que o cumpadre da minha mulher bateu em 1978, nas terras que ele tinha antes de se aposentar e ir morar com os filhos. Dizqui já tentaram comprá a foto dele, mais ele não vende di jeito nenhum, é um troféu que ele diz que guarda e vai levá pro caixão.
Nessa eu até me interessei, disco voador, hmm. Desliguei a rádio do celular, já estava irritando o ouvido, e perguntei pro cara como era a foto.
- Ah, é bacana.
- Sim, mas como ERA a foto?
- Não sei, eu não vi. Ele não mostra pra ninguém.
- E como sabe que é uma foto de disco voador?
- Porque ele contou. O cumpadre diz que uma loira intergalática visitou ele - ele já foi bonitão, hoje é que tá um caco, doente da perna - e pediu pra ele, sabe, hehe. Dá uma bem dada com ela.
- Ah foi é? - eu não sabia se estava lidando com um maluco, um caipira ou um chato de classificação não-conhecida.
- Hehe, ele diz que foram no matinho e pá. Nessa que ele bateu a foto. A loira dando tchauzinho e entrando no disco voador. Ficou só essa recordação.
Nisso o chato se aproximou de mim, como para contar um segredo da história.
- Ele disse só que ficou coçando, lá no 'bicho véio', por uns dias, mas que foi uma foda daquelas. A loira era bem alemoa mesmo, e ele mandou ver. Representou bem a nóis! - riu.
- E por que ele não mostra a foto?
- Porque a senhora dele tem ciúmes, e não quer nem ouvir falar em disco voador, loira... e nem em trepar também, pelo que ele me disse.
Eu fiquei imaginando os parentes do Paraná do chato ao meu lado, e o patriarca trepando com uma loira tipo Abba vindo de Marte, em um matinho, nos anos 70. E ainda com foto para provar.
- Eu acho que eles vinheram aí só pá pegar cria mesmo - continuou o chato, em sua análise de especialista. A loira deve ter embuchado, e nascido um verdinho em outro planeta. E se eu sou parente dele, devo ter ficado contra-parente da loira né? Uma parte da família pode estar até fora do Universo né não?
"Com certeza", eu pensei, "aí estaríamos a salvo".
Haha, esses dias vi na MTV que o guitarrista do Korn saiu da banda, 'encontrou Jesus', fundou uma igreja, passou a usar visual tipo Inri Cristo, e adotou 200 crianças na Índia.
- Bem, tenho que descer, o senhor me dá licença - levantei.
- Opa, pois não... - o chato deu passagem.
- ...e cuidado com as loiras, viu? - brinquei.
- Mas pois é - o cara respondeu sério - de repente alguma é das minhas parentes de outro praneta - nessa hora ele errou 'planeta' - eu me engraço, o que o padre vai dizer?
- Acho que vai dizer amém. Até mais.
Chato é chato.
marcio de almeida bueno - 14:49
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29.6.06
Capítulo 18
(Daniel Barbosa)
Só me restava agora fazer um cursinho pra fazer vestibular pra qualquer merda. Tipo virar pessoa séria, preocupado em fazer aqueles trabalhos de merda que os professores passam pra se livrar de ter que dar aula. Foi nesse cursinho e tal que eu conheci a menina-metal:
-Eu curto Korn, saca?
Mas era gostosinha, fazer o quê?
-Você gosta de new metal?
Putz, o que eu não faço por uma furunfada.
E usava meias até o meio da canela, isso é que mata, maior tara por mulheres com meias até o meio da canela. Até jogadoras de futebol, não posso ver que fico tarado. Daí levei ela lá em casa pra 'mostrar um som'. Ela foi logo fuçando os vinis, eu desconversei, disse pra ir olhar os cds, talvez tivesse algo mais moderno entre eles, se ela visse meus discos de Paulo Diniz ia embora na hora.
-Isso é metal, né?
Se respeite menina, nunca ouviu Love? Porra, quem já viu uma banda de metal com um nome bicha desse? Quase digo, claro que não disse. Putz, O que não faço por uma chavascada. Nem respondi, achei um disco de Led Zeppelin e fui logo colocando, metaleiros adoram coisas bem tocadas. Ela nem conhecia o Led:
-Tem algo de Death Noise Doom não?
Será que ela tá pensando que eu sou headbanger também? Deve ser por causa da cabeleira, tava sem grana pra pagar um barbeiro e depois que eu vi uma foto do Allan Moore em uma revista de quadrinhos fiquei doido pra ter um cabelão como o dele, pena que minha barba não cresce muito, tipo Gandalf saca? Se crescesse ia ficar igual, igual. Cagado e cuspido. Por falar nisso, Hollywood estraga tudo mesmo, Senhor dos Anéis já foi uma das minhas idéias fixas, desde o dia que li numa revista barata de ficção científica de Isaac Asimov sobre como Tolkien era o mestre da ironia, era um texto sobre literatura e tal, daí vem o filme e faz aquela merda, depois que passei meses juntando grana pra comprar o livro. Esse Código da Vinci não quero nem ver. E o King Kong novo? Putz, King Kong virou um macaco moderninho, meio gay, tipo que acha que ter libido é ser grosseiro, ehehehe, o jeito é ver um filminho iraniano com uma historinha simples sobre peixes ou sapatos.
Tá, mas enquanto eu estou aqui divagando, a Menina-metal tá morrendo de tédio no sofá, ouvindo Led.
-Isso né metal não, é? Ah, lembrei que tenho uma fita do Blink 182 aqui dentro da mochila.
Quase pergunto, e Blink 182 é metal? Putz, o que não faço por uma pirocada.
Daí ela colocou e ficou doida, veio para cima de mim como um trem descarrilhando, me beijando como um polvo, apertando:
-O bom é assim, seu porra - e me deu um tapão na cara.
-Colé menina?
-É assim que é bom ...metal ...metal - Porra, a menina parecia do Massacration. Veio rasgando a roupa e mordendo, batendo. Eu empurrei.
Ela me deu um soquinho no nariz, mas pegou de jeito, sangrou.
-Sangue, sangue ao Deus do metal.
-Como é?
-Sangue, sexo só presta com sangue.
-Hein?
Veio de unha no meu rosto, parecia o Wolverine.
-Quero mais sangue!!!
Putz, sabe o que fiz? Me piquei dali, saí correndo mesmo, expulso do meu próprio lar. Empurrei ela em cima da cama e disse "se quer sangue vai menstruar, sinha puta" e me saí, batendo a porta da frente. Fiquei escondido atrás do muro do vizinho só esperando ela sair, com uma vontade do caralho de ir para o conforto de casa, colocar um Portishead e ficar lambendo minhas feridas (literalmente). Ela demorou horas para sair, batendo a porta com força. Foi ela saindo e eu entrando. Putz, quando fui pegar o Portishead em edição importada em vinil tava escrito na capa de papel e até no disco: "isso não é metal, seu viado!!!!". Olho para os outros LPs e em todos tinha escrito o mesmo, às vezes com batom, às vezes com caneta Bic e giz de cera, que sempre deixo em cima da mesa para desenhar. Tava tudo arranhado e rabiscado.
Putz, o que não faço por uma sarrafada.
Daniel Barbosa - 12:24
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12.5.06
todo mundo em ritmo de concentração na espera do próximo capítulo! força daniel!!!
marcio de almeida bueno - 11:11
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22.4.06
Capítulo 17
(Marcio de Almeida Bueno)
Eu andava numas de fazer um curso via correspondência, alguém tinha me assoprado que dava pra fazer um curso qualquer na barbada, ganhar carteirinha, diploma, e até arrumar um emprego. Não que eu estivesse torcendo por arrumar um emprego, mas é que as coisas andavam num aperto daqueles, e chega um hora que o cadáver pede um pouco de conforto, algo mais a oferecer do que o corre-corre diário, sem ter uma graninha pra morrer num café, ou comprar um jornal ou um disquinho. Só isso já me basta, poder sair de casa, sentar em algum lugar, ficar observando as pessoas em silêncio, ler alguma coisa, ver um cachorro, prazeres simples era o meu desejo no momento.
Achei um anúncio num lugar qualquer sobre uma escola de cursos via postal. A sede era do outro lado do país, mas eles garantiam que eu me sentiria na própria sala de aula - isso não era meu desejo, quem procurava essa oportunidade de formação à distância é porque tinha, no mínimo, falta de interesse em maiores convivências sociais. A lembrança de TER que ir para a escola era horrível, aqueles dias de chuva que eu tinha que estar em um prédio cinzento, cheio de trouxas, piranhas, antas, dondocas, esnobes e demais categorias humanas, tudo era terrível. Às vezes, dizer 'bom dia' era muito desagradável, ainda mais quando a coisa toda é uma obrigação, um sentido que todos têm que dar às próprias vidas diárias. "Vocês sabem o que fazer, rapazes, não criem problemas".
A tal escola tinha curso de caligrafia, desenho arquitetônica, desenho artístico / publicitário, detetive particular, mecânica de motores, mestre de obras e 'madureza ginasial', o que quer que isso significasse. Acho que peguei um anúncio em uma revista muito velha - sim, era uma revista que comprei em um sebo do centro da cidade, e tanto o exemplar quanto o proprietário do local eram sebosos. Arre! Pensei que o 'centro de ensino' poderia não ter mudado de endereço. A revista era de 1972 - eu nem tinha nascido, e o pau do meu pai ainda estava longe da xota da minha mãe - resumindo assim a coisa não fica tão romântica, mas matematicamente é isso, rapazes!
O anúncio tinha um cupom do tipo "não precisa selar", e eu sempre fui fascinado por isso, como fica um treco desses de três décadas atrás? Será que o correio aceita? Até o CEP era meio diferente, tinha números a menos, mas resolvi arriscar, só pelo nonsense da coisa. Preenchi com letra bonita, afinal ia solicitar o curso de Caligrafia Profissioal. Eu ia ser um funcionário de destaque, a partir dessa formação em meu currículo. Recortei e dobrar e meti em uma caixa de correio, já que no lugar do selo dizia "não é necessário selar, o selo será pago por...". Agora é só esperar, e fui procurar o café mais barato que tinha por ali.
(...)
Passaram-se vinte dias, recebo uma carta. Estava em nome de uma mulher que eu não conhecia. Pela letra, era alguém já na finaleta da vida, que um dia teve uma letra rebuscada e cheia de curvinhas e rococós. Li a tal da carta. Em resumo, ela era viúva do proprietário da escola de cursos por correspondência. De alguma forma, o cupom chegou até ela. A velhinha disse ter ficado emocionada, porque faziam alguns anos que a empresa tinha sido vendido para terceiros, e ela teve que se aposentar. Perguntava onde eu havia conseguido aquele anúncio, qual o meu interesse, se eu gostaria mesmo de fazer o curso à distância, ela se disporia a repassar as lições semanalmente e tudo mais, como eu faria para pagar etc.
Mais tarde, refletindo sobre a história, achei por bem desistir do curso de caligrafia, e tentar alguma coisa numa instituição tradicional, com colegas e professores e toda a pantomima incluída. Era mais honesto eu enfrentar as aulas como um anônimo do que dar esperanças a uma velhota que eu não conhecia, e que acabaria por se afeiçoar a mim. Não tenho nem amor próprio, como vou dar corda a alguém que se agarra a um cupom vindo de longe, ...vindo de três décadas antes?
marcio de almeida bueno - 14:54
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17.3.06
calma pessoal, o próximo capítulo já está saindo!
marcio de almeida bueno - 16:07
Comments:
2.2.06
Capítulo 16
(Daniel Barbosa)
Depois de um tempo minha língua já fazia parte de meu corpo novamente. Esqueci a borboleta. Em compensação virei freguês número um do bar que comprei guaraná para lavar minha alma daquela sebosa. Virei até amigo do dono, Seu Gumercindo. Seu Gumercindo ficou tão meu amigo que me levou para conhecer sua família (mulher , irmã e dois filhos). As crianças pareciam anões saca? Putz, eu sempre odiei crianças que parecem adultos, se vestem como adultos, e falam com aquela voz irritante de criança mas usam palavras de adulto, com entonação de adulto estressado. Elas eram os donos da casa, Paulo e Paula. Eu tinha até dó do seu Gumercindo, fazendo tudo que a criançada mandava:
-Hoje é dia de nós levar ao circo, você prometeu, não se deve prometer as coisas paraa uma criança e não cumprir.- Elas adoravam chamar a si mesmas de criança, mas usavam isso sempre a seu favor.
-Tá, só vou terminar de ver esses filme..
-Você disse cinco horas, já são cinco e cinco.
-Peraí...
-Não se deve fazer uma criança esperar!
-Ah, calma...
-não se deve falar alto com uma criança!
-Humpt! Ok, ok, qual circo mesmo vocês querem ir?
E era sempre assim, Paulo e Paula mandavam na casa. Eu ficava ali como observador. Só tolerava aquilo porque seu Gumercindo era moral, estava sempre me dando algo, um almoço, uma graninha para o cigarro, velhos discos de Odair José. Eu comecei a pegar afeição pelo gordo, pô, ele era como um pai para mim. Sempre colocava na rádio que eu gosto quando eu chegava no bar, sempre me levava para tomar umas em sua casa. E eu sempre tinha que aturar aquelas crianças miseráveis. Os pentelhos pareciam nazistas, ou pior ainda, sei lá, publicitários, com todas aquelas técnicas de persuasão:
-Queremos comer pizza hoje!
-Tou sem grana.
-você prometeu. Na sua conta tem dinheiro suficiente.
-Coméqui vocês sabem?
-você pensa que somos crianças é?
Era sempre assim, mudam de idade de acordo com suas necessidades diante do pai, da mãe ou da tia.
Não vou mentir, dava vontade de matar aqueles guris.
E foi isso que Gumercindo me propôs:
-Você é meu amigo, eu te dei comida, dormida, cigarro, discos do Odair José, Mata eles para mim, por favor.
Pense num cara transtornado?
Eu ainda pensei em aceitar, mais depois lembrei que quem mata criança só se fode na vida, nem pro céu vai. O inferno é quente demais. Acho que nem ventilador tem.
Daí eu disse:
-Colé Gumercindo, são seus filhos!!!
-Filhos filhadaputa, é que são.
Eu quase ri quando ele disse isso, mas não tinha clima para tanto.
Não sei porque, mais falei:
-Pode, deixar, eu não vou matar, mais vou dar um jeito nos fedelhos.
Ele se jogou em meus pés agradecendo como um demente.
Putz, os guris destruíram os miolos do cara.
-Vamos lá em sua casa, preciso falar com eles.
Fomos andando com passos rápido.
Chegando lá fui direto aos guris. Pedi a Gumercindo para ficar do lado de fora da casa:
-Seu Pai me pediu para matar vocês.
-E você vai nós matar?
-Nem sei, acho que não...
-Ah, mata!
-?
-Pode matar, eu não ligo...
-não?
-Odeio morar com essa gente mesmo.
Tirei o 38 velho do bolso e deu dois tiros, um em Paulo e outro em Paula. Os dois na cabeça, quase no mesmo lugar, entre os olhos, minha mira continua boa.
Saí e vi a cara de Gumercindo assustado:
-Fiz o serviço.
-Hein? Mais Você não falou que não ia matar?
-Eles pediram.
Gumercindo entrou correndo em casa e se juntou a mulher e a irmã num choro em uníssono. Putz, como chora feio esse povo.
-Ah, o que vou fazer? Meus anjinhos morreram, Meus anjinhos morreram. - Gritava Gumercindo, em prantos.
Ainda tinha duas balas no revolver. Foi o que a grana deu pra comprar. Poupei a irmã. Pura sorte. Ela é um doce, cozinha bem pakas, adora um tchaka-tchaka e curte Odair José. Juntamos os panos de bunda. Na casa de Gumercindo claro. Os corpos a sete palmos, mais ou menos, enterrados no quintal. O único inconveniente que é que nunca vou poder mandar fazer uma piscina ali.
Daniel Barbosa - 11:03
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18.1.06
Capítulo 15
(Marcio de Almeida Bueno)
Graças a Deus me esqueceram logo depois dessa história de 'one-hit-wonder', que para um conhecido meu significava 'a primeira maravilha do mundo'. Sim, inglês 100%. A coisa andava muito rápido, qualquer idiota distante se ligava em mim via Internet, então durante um tempo eu tive que desviar de uma série de malas que viam em mim a solução para seus próprios problemas. Propostas de casamento, fotos eróticas, ursinhos de pelúcia - porque um dia eu fui cair na besteira de dizer em uma entrevista que eu "amava aqueles ursinhos fofos de pelúcia", era sarcasmo, claro, mas os mais débeis entenderam como um sinal verde para me enviar teddy-bears pelo Correio, enquanto que alguns entenderam que eu era gay da linhagem 'bear', aqueles gordolões, peludos e barbudos. A Internet realmente é uma maravilha. Bom, a piada durou só um mês, logo eu estava esquecido, e minha tola canção de sucesso já era velha. Daqui a uns 20 anos estarei talvez na programação de rádios do tipo flashback, quem sabe, junto com Air Supply, Gilliard, Hall & Oates e Gang 90.
Aí eu tava na rodoviária e a droga do ônibus ia demorar ainda três horas, e não dava tempo pra fazer nada, exceto esperar como um porquinho rosado espera o caminhão chegar na slaughterhouse. Ao meu lado, dois chatos conversavam, um deles disse "...executei de forma satisfatória os procedimentos técnicos necessários para a plena finalização pretendida". Provavelmente ele trabalha com logística, que é o troço mais chato do mundo. E eu já não estava mais agüentando ouvir o papo alheio. Tinha uma única lanchonete com algumas revistas, tá ligado encalhe de rodoviária né? Só tem revista pornô sueca, 'Blacks on blondes' e Private velhas. Pelo menos não são usadas, uma vez eu comprei uma importada cheia de páginas grudadas, e o antigo dono ainda fez umas anotações a caneta nos cantos, não sei se era pra saber quais as 'melhores' fotos, 'as que davam mais sensações'. Acabei comprando uma revista Private, aquelas cheias de anúncios de leitores, fotos de mulheres com celulite e furo na bunda, usando máscara de Tiazinha, casais transando, paus duros apontando para o Norte, closes ginecológicos, poses supostamente eróticas e tal - um verdadeiro tratado do imaginário sexual dos nossos vizinhos, esses seres repulsivos. Fiquei folheando a revista, tentando achar algum parágrafo para gastar tempo em leitura, mas só achava figuras. Obviamente o pau ficou duro, claro, não sou padre. Ou melhor, ainda bem que não sou padre, nem fui coroinha!
Teve um anúncio que me chamou atenção, era de uma cidade próxima, tinha email e tudo mais. O pseudônimo era 'Borboleta da noite', e a foto estava um pouco acima dos closes obstétricos das demais fotos femininas. Pelo celular mandei uma mensagem, aguardando resposta imediata, como se isso fosse acontecer. Claro que aconteceu, se não este capítulo não teria razão de existir. Resumindo, marcamos uma ponte pra um fuc-fuc. Sim, não me espantei, já que o objetivo do anúncio era essa. Princesa encantada não colocaria anúncio com a xoxota aberta e babando, pra ser publicada em cores. E babava mesmo. Lembro que quando eu era criança eu fiquei impressionado com uma frase que ouvi, acho que na escola, que "o pecado original era nascer entre o mijo e as fezes" - frase dita por algum professor religioso. Imaginava uma meleca, vísceras, xixi e cocô, os participantes suados, e de repente o médico, com luvas de borracha, intervinha pra tirar o nenê ali do meio. "Casar nunca", eu pensava, apavorado. Era bem melhor correr e chutar os coleguinhas, na época.
Fui bem recebido na casa da pinta, a 'Borboleta da noite'. Claro que, pessoalmente, era muito mais feia que na foto. Enquanto ela falava sobre qualquer amenidade, tentando fingir que havia qualquer outro objetivo naquela situação que não fosse atrito nas paredes internas da vagina, durante alguns intermináveis minutos. Ela falava umas merdas qualquer, e eu hipnotizado, ainda cansado da viagem de ônibus, pensava se não tinha trocado a foto dela na hora da impressão, alguém se atrapalhou no meio de centenas de anúncios, e publicou uma outra no lugar da dela. Era suficientemente diferente. "Vou trocar de roupa para ficarmos mais à vontade", ela disparou o clichê que eu achei que só era dito em filmes. Olhava a cafonice da decoração, os bibelôs horríveis na prateleira, os riscos na parede, quem morava ali era bem brega e relaxado. Ela demorou um pouco - outro clichê - e eu fiquei lembrando de um diálogo que tive na véspera, com um conhecido.
...
- Bah, coisa fina aquele disco 'Build Up' da Rita Lee, a banda de apoio é Mutantes, e a produção é do Arnaldão Baptista. A versão para 'José' é de chorar de tão triste e bonita.
- Mas 'Macarrão com lingüiça e pimenta", quem diria hein dona Rita Lee? E os arranjos são meio sub-Petula Clark.
- Coitado do Arnaldo!
- (Ouvindo o disco) Ih, aquelas histórias do Arnaldo que Jesus era um alienígena. Deu vontade de jogar fora o 'Let it bed'.
- Ele tá certo na filosofia dele, mais que muita gente por aí - respondi, na ironia.
- Arrã, ele e o Ashtar Sheran.
- Só conheço o leão Aslam!
- ...Tá, uma música eu gostei, a 'Hulla hulla', e a cover dos Beatles tá valendo também.
- Nem a "José"? É a música favorita do meu coroa, no francês original.
- Tem umas psicodélicas de verdade que eu gostei, as de mulherzinha achei ruins. Mas o Arnaldo aproveitou mesmo pra socar a 'filosofia dele' nesse disco. Também, quem paga tem direito".
- Claro, ganha a música e já 'uns toques' pra se ligar! - tirei um sarro.
- Mas voltando ao papo de religião e conspiração... coincidência os 'Templários' adorarem o Bafometo e guardarem 'o segredo do Santo Graal', né?
- Eu não sei de nada, sou do tempo da catequese... Jesus, Maria, José, Natal, Páscoa, obedecer o 'papai do céu', e acabou-se. O resto é grupo, como dizia o Bezerra da Silva.
- Tá ligado o Bill Moseley?
- Hã... não.
- O cara do 'Massacre da Serra Elétrica 2', aquele da plaquinha de metal na cabeça.
- Ah sim, 'o caroneiro'. Que que tem?
- Tocou numa banda aí, nos anos 70.
- Todo mundo já tocou numa banda. Menos nós.
...
Nisso a Borboleta voltou, com uma roupa que, só na cabeça dela, excitaria um homem. Eu tava mais a fim mesmo é de descarregar a coceira do pau, e ir embora. Acho que teria até nojo de limpar o pau na cortina, pelo encardido do pano. Vai saber quem esteve ali antes. Minutos depois estávamos transando, uma foda bem mais ou menos, mas também eu não podia decepcionar uma possível futura groupie. Imagina o que o Mick Jagger já teve que enfrentar, aquelas ripongas pentelhudas que não tomavam banho. Tudo em nome do rock'n'roll. Aí a moçoila, no meio do suadouro, pediu que eu colocasse meu 'aquilo' nela, em uma modalidade que a Bíblia chamaria de "contrária à Natureza". Senti mais asco que qualquer coisa, mas isso me livraria de ter que explicar porque eu era o único brasileiro vivo que não era "vidrado num bumbum", como sempre dizia a Playboy nos anos 80. Executei de forma satisfatória os procedimentos técnicos necessários para a plena finalização pretendida.
Na hora de botar as calças, fui ajeitar o Fábio Júnior - sim, este era o apelido que uma antiga namorada havia dado ao meu pênis, não me pergunte o porquê - e vi que havia, eca, uma coisinha preta ali no 'buraquinho do olho mágico'. Sim, por onde sai o xixi, já que alguns não entenderam e vão me perguntar depois. Não conseguia identificar se era uma casquinha de feijão, mas era bastante perturbador. Ela estava colocando de volta o short amarelo - besame, besame mucho - quando notou que eu estava examinando a estrovenga com atenção.
- O que foi? - perguntou
- Uma sujeira aqui na ponta do meu pau.
Silêncio constrangedor. Um cachorro latia, ao fundo. Au-au-u-u-u.
- ...passa a unha que sai - falou, ficando meio emburrada.
- Não, depois eu vou ficar cheirando o meu dedo toda a viagem de volta. E esta cueca é nova, não queria...
- Aqui é que tu não vai tomar banho, seu porco - estava emburrada de vez. "Minha bunda é suja, é?", devia estar pensando.
- Olha, essas coisas acontecem mas eu não posso esconder que tenho nojo.
- Muita gente me assovia na rua, elogia minha bunda, e você parece que transou com uma leprosa - já estava gelada, a Borboleta.
- Posso lavar na pia?
- De jeito nenhum, e vai embora que minha vó deve chegar daqui a pouco. Seu 'meia-foda' - o desdém já era a tônica.
- Escuta, você não se lavou hoje, sabendo que ia fazer sexo anal?
- Ha-ha, isso é para travesti. A mulher aqui é muito da gostosa, se quer saber. Recebo muita carta, email e telefonema de quem vê o meu anúncio. Estou sempre transando, se quer saber... hoje mesmo, mais cedo, dei gostoso pra um cara que me contatou antes de você.
- Alguém esteve aqui e te comeu antes de mim?
- Minutos antes. E o anal dele foi bem mais profissional que o seu. O pau estava meio sujo, com uns queijinhos na pele que encobria a glande, mas eu disse que encarava mesmo assim, só não chupei, por nojo.
- E você me disse que já estava me esperando com KY passado nesse rabo sujo, que por isso mesmo a penetração foi macia!!!! - eu gritei
- Ha-ha-ha - ela riu cinicamente - o cara é que gozou dentro de mim, e a meleca ajudou na SUA entrada. Provavelmente a casquinha de feijão era dele, vai saber por onde andou o 'pirata-de-um-olho-só' dele!!!
- E eu ainda passei a língua, porque você pediu! Disse que era um caldinho saindo "pelo excesso de tesão" que eu lhe causava! Sua puta!
- Bem, fora daqui, antes que eu chame a polícia.
Saí correndo, colocando a cueca com o maior asco, como se meu pênis já não fizesse parte de mim, e parei no primeiro boteco que vi. Pedi guaraná. Enchia o copo, bochechava com vontade e cuspia tudo com força no lado de fora da porta, na calçada. Sob o olhar atônito e desconfiado do proprietário, eu disse que "era pro santo". Mas na verdade eu sentia que minha língua TAMBÉM não fazia mais parte de mim. Eca.
marcio de almeida bueno - 23:37
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17.1.06
ABRE PARÊNTESES!
Na semana passada entraram no ar os capítulos 13 e 14 do MÚTUO, livro que está sendo escrito 'ao vivo' no blog www.mutuo.blogger.com.br por MARCIO DE ALMEIDA BUENO e DANIEL BARBOSA. Ambos são militantes do underground e da contracultura desde o final dos anos 80, e há cerca de uma década fazem trabalhos conjuntos - poesia, composições, histórias em quadrinhos, fanzines - à distância, já que Marcio mora no RS e Daniel na Bahia. Tudo isso compartilhando o mesmo gosto por rock and roll e mpb prafrentex, discos de vinil, literatura pé-na-porta, filmes transgressores, arte rebelde, cultura lixo, xerox, psicodelia, violência Atari, tênis sujos, camisetas pretas e guitarras pegando fogo!
- Marcio de Almeida Bueno, 31 anos, edita o fanzine FALÊNCIA FRAUDULENTA desde 1991, teve cartuns publicados nas revistas GERALDÃO e NÍQUEL NÁUSEA, e foi destaque no lendário livro ALMANAQUE DOS FANZINES, de Bia Albernaz. É Jornalista, e entre outras atividades faz parte do MusicaTri, que mantém o site www.musicatri.com.br e um programa de tevê no PoaTV da NET. Como compositor, lançou as demos 'So Sad Songs', 'Morrer Está Na Moda' e 'Reze Menos Por Mim' e o cd 'Sol Dentro Do Banheiro', em sua carreira-solo. Com seu projeto de metal extremo TRUCK LIKE TANK, participou em 2002 do cd-tributo 'No shit...', lançado pela Crippled Tickler Records, da Suécia, reunindo grupos do mundo inteiro interpretando canções do não menos lendário G.G. ALLIN. Em 2004, com seu projeto de electro MÁQUINA DE ATENDER TELEFONE, participou de uma coletânea editada nos EUA pela gravadora Comfort Stand dedicada a temas inspirados em filmes pornôs. Atualmente aguarda a 'segunda vinda' de Elvis Presley. www.falenciafraudulenta.hpg.com.br
- Daniel Barbosa, 28 anos, é um matuto moderno do interior da Bahia, seu primeiro zine foi o 'Célebro Exposto', com direito a erro de português cometido por uma criança de 10 anos! Desde 1994 edita o 'Mr Hyde Zine', principal título de uma série de publicações voltadas à colagem, poesia, quadrinhos e experimentações. Também publicou fanzines somente com reproduções de suas pinturas, e em meados dos anos 90 editou dois números do zine 'Mútuo', junto com Marcio de Almeida Bueno, protótipo e balão de ensaio da obra atual. Expõe seus quadros regularmente desde 1995, em cidades baianas como Alagoinhas, Sítio Novo e São Félix, além de ter feito uma mostra individual em Salvador em 2001, no Shopping Piedade. Em 98 participou do livro 'Formaline', editado na Bélgica, com desenhistas de todo o mundo. Já tocou em bandas de rock baianas como Osmose, INRI, Diablues e a recente Miss Underground & Os The Sepcionantes. Recentemente lançou seu primeiro cd-demo, 'Space Circus', assinando como a banda imaginária 'Danielvis The Pelvs And The Interior Gang', e contando com a participação de Dennis Wilson, "um quase-VJ da MTV". roquetriste.blogspot.com e danielbarbosa.blogspot.com
FECHA PARÊNTESES!
marcio de almeida bueno - 16:13
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9.1.06
Capítulo 14
(Daniel Barbosa)
De repente, minha vizinha muda de gosto, agora ela só coloca coisas antigas de Lou Reed, New York Dolls, David Bowie. Outro dia encontrei ela na escada do prédio:
-Glam, saca? Agora eu sou um Glam girl.
Putz, não sei de onde ela tirou essa, Glam. Deve ter sido influenciada por essas bandas hype-do-momento.
-Vi um documentário sobre o Glam rock na Tv a cabo. Me amarrei. Negócio de funk, o must agora é o Glam.
Mas até que ela ficou gata com aquelas plumas e paetês, batom preto, sapatos plataforma, cabelo verde, óculos escuros.
Passei a sair com ela. Putz, uma garota que transa ouvindo Transformer de Lou Reed.
Íamos a boates de drag queen, já que ela não achou nenhuma boate glam na cidade.
Tudo ia bem até eu descobrir que ela era esquizo.
-New wave manja?
Sim, agora ela usava cabeleira estilo a mulher de homer simpson, B-52´s, ternos verde limão, lia a revista UFO, usava óculos 3-D o dia todo, botas cor de rosa, e ouvia Devo.
-Assisti na Tv a cabo.
Tudo bem , um troca justa, ela ficou mais trash, meio anos oitenta, blitz e tal, mais tudo bem.
Passei a morar no apê dela, no meu nos criamos um estúdio e montamos uma banda chamada Esquizo Lady. Ela era a vocalista. Algo meio De Falla, saca? Cada novo disco era um estilo diferente.
-Agora sou uma punkinha.
Disse ela quando me apareceu com o disco do Richard Hell embaixo do braço, cabelos espetados, uma camisa escrito "I hate pink floyd", como a que Johnny Rotten usava na época da Sex, alfinetes de criança espetado na camisa. Bottons.
Tudo ok, punk rock é legal.
Ela tocava baixo. Desaprendeu o que sabia para tocar como os ramones. Hey ho, Let´s Go.
Mas quando ela me apareceu com uns megahair na cabeça, calça dos estados unidos, aquelas pulseiras que os caras que querem parecer guitarristas usam, e ouvindo guns n roses e jon bovi o nosso rompimento foi inevitável. Hard Rock Farofa não. Não tem cristão que agüenta essa bosta. Terminei tudo e fui para casa ouvir meu nick Cave na solidão da minha casa , que agora era um estúdio. De primeira, fiz uma canção, "Ela Me Trocou Por Um Short Com Enchimento". Não é que a canção fez sucesso? Tocou em todas as rádios, da noite para o dia virei tipo um mamonas assassina solo. Um dia ela veio me visitar. Ela usava franjinha e uma camisa do selo Midsummer madness.
-indie rock saca?
Putz.
Daniel Barbosa - 21:46
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7.1.06
Capítulo 13
(Marcio de Almeida Bueno)
Acho que vi você, em frente a um cinema, duas da tarde, aquele sol na minha retina. Acho que vi você, perguntando a um passante que horas eram, quanto tempo faltava. Acho que vi você, andando na rua, cheio das bossas, penduricalhos e correntes. Acho que vi você, o dia ainda não era noite, os olhares suados dentro do ônibus. Acho que vi você, bata indiana, descendo na esquina em frente ao correio. Acho que vi você, horas depois, subindo a avenida, com óculos na testa. Acho que vi você, desderdado da vida, maltripilho e fedorento, cruzando no sinal. Acho que vi você, empoeirado e estranho, cheio de recordações e lembranças e marcas digitais e pequenos arranhões invisíveis à distância. Acho que vi você, batendo fotos, fazendo poses, mexendo na mochila, acendendo um cigarro. Acho que vi você, carregando uma pasta, olhando o relógio, atendendo o celular. Acho que vi você, andando em bandos, todos de tênis americanos iguais. Acho que vi você, um pouco mais velha, mas ainda ereta, e exibindo-se pra mim. Acho que vi você, arrumado pra sair, com gel no cabelo, olhando pelo canto do olho, sentado fingindo estar natural. Acho que vi você, lendo revista, espiando curiosa, cruzando as pernas, olhando de novo. Acho que vi você, penteando o cabelo, escondendo o dente que falta, rindo com os colegas pra esconder o mau-humor pro resto do mundo. Acho que vi você, respondendo estranha, criando um mal-estar. Acho que vi você, preocupado e interessado, mas atrapalhado e esquecido e sumido e confiável. Acho que vi você, estressado nas férias, com dores por tudo, voltando ao local de trabalho. Acho que vi você, vendendo tênis na rua, com a barba crescida, pegando os lances. Acho que vi você, com a faca sempre cortando as entranhas, aonde quer que você vá. Acho que vi você, drogada e de óculos escuros, rica e infeliz. Acho que vi você, perdida e caipira, louca, feia e chata. Acho que vi você, fazendo pose, criando pose, cultivando poses. Acho que vi você, perdido entre rotas, encolhido na pose, curtindo a nobreza.
Cara, foi uma seqüência de pensamentos daquela. O troço fluía como uma torneira aberta, era começo e fim ao mesmo tempo, o que saía era rabo do que estava já lá na frente, e era cabeça do que viria depois. Em jatos, quase. Dormir depois era o problema, a cabeça ficava a mil, idéias sapateavam na minha testa, eu me lembrava de alguma cena excitante, meu pau ficava duro e coçava, eu virava o travesseiro - só consigo dormir com o travesseiro gelado, se esquentar eu me sinto terrivelmente mal - mas tudo estava espinhento.
Muitas bandas adquirem um pico de maturidade, eu pensava enquanto selecionava que disco ouvir na minha prateleira, depois de alguns anos de atividade. Beach Boys, por exemplo. A coisa era bem ensolarada, nada contra, até que o Brian Wilson passou a ficar trololó das idéias e o som começou a mudar. Tinha Beatles na parada, a maior pedreira que uma banda poderia enfrentar, e a temática das músicas começa a mudar - um dos primeiros sinais que a banda está amadurecendo. Então o final dos anos 60 e comecinho dos 70 é a melhor fase dos Beach Boys pra mim, todo mundo com barbão e boné, pinta de jesus redneck, e sonzaços fudidos como 'Tears In The Morning' - o cara tem que ter culhão pra escrever uma canção assim. O mundo do rock já era outro, Jimi Hendrix, Creedence e tal, e essa fase dos Beach Boys é genial, anos-luz da fase 'todos com pijamas iguais'. Claro que lá no meio o cara encontra sinais do que iria se desenvolver no seio do grupo como estilo amadurecido, e que bom que a coisa floresceu, ao contrário de muitas bandas que morrem na promessa. Rolling Stones é outro exemplo. O começo era basicamente imitar Beatles e Chuck Berry, e aos poucos os caras foram criando vergonha na cara. Pouco a pouco pintavam sons criativos e com temáticas que não incluíssem a palavra 'baby', mas a tosqueira dos discos é inegável, parecia banda de colégio com produção razoável pra enganar os pais. E aquela capa de 'Their Satanic Majesties Requested' é a coisa mais constrangedora do mundo, tu vê que ninguém da banda consegue ficar à vontade, fantasiados de Beatles fantasiados de Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band. Não sei como não rendeu um processo. Mas eis que a banda passa a lançar uma seqüência de álbuns formidáveis - 'Beggar's Banquet', 'Let It Bleed', 'Sticky Fingers' e 'Exile On Main Street', justamente recheados de canções com temáticas amadurecidas, como eu citava antes. A banda deu uma descida em meados dos anos 70, com discos razoáveis, e volta à carga na fase de 'Some Girls', 'Emotional Rescue', 'Tattoo You' - defendendo sua posição do ataque direto do punk rock e até da discoteca, algumas vezes assimilando elementos desses dois estilos, sem sair do próprio som. Mas os discos de 68 a 72 são os que mostram a banda mais amadurecida, coesa, nos instantes anteriores à figura do heroísmo e heroína.
Peguei a vassoura e dei umas boas vassouradas no teto, porque as vizinhas de cima, "ah, elas estão descontroladas"!
marcio de almeida bueno - 11:19
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21.1.05
Capítulo 12
(Daniel Barbosa)
“Vou te botar de quatro
Eu vou, eu vou
Vou enfiar o meu grandão (Com muito carinho , dá a chupadinha)
E vou fazer você dançar, com a mão no meu loló
Dançar o funk forró“
O que mais me irrita nesses funks é que é quase tudo no diminutivo ou aumentativo , saka? “dança da motinha”, “pankadão”, “Bonde do Tigrão”. Eca, que troço mais trash, é algo completamente anal-fabeto, os caras colocam no diminutivo ou aumentativo porque é mais fácil de rimar. Porra, lá em cima a putaria continuava, a única coisa que poderia fazer era colocar um som “punkadão” aqui embaixo também. Procurei nos meus Mp3 e achei uma pasta do Motorhead para me alegrar um pouco (Ace of Spades, Ace of Spaces). Fico lá na cama ouvindo Motorhead e lendo um poema antigo meu:
OS RETALHOS PSICÓTICOS
Não venha me dizer
O meu lugar
Enquanto você tenta viver
Eu morro a sonhar
As vezes sou Fernando Pessoa
Outras sou Napoleão
Nem sempre
Não sou a mesma pessoa
(uma falha na transmissão)
Eu não aquento mais
tanta gente por perto
500 mil
E estão todos deitados em minha cama
E falam sem parar
Todos olham para mim
Não consigo nem sonhar
Dentro da solidão você me espreita com sua faca afiada.
Esse poema fiz inspirado numa garota que tive antes de conhecer Kétlin, O nome dela era Gretchen (sabe aquele conto de Ruben Fonseca que o cara trabalha cuidando de velhinhos e tal? É, foi inspirado nele que eu dei esse nome para minha namoradinha). Gretchen era estudante de Medicina, Magrinha e tal (isso dependia do dia, às vezes eu enchia ela demais com ar) e comunista tardia, porra, ela implicava com minha camisa do Ramones que tinha uns tacos de Beisebol, dizendo ser coisa de Porco Alienado Vendido Ao Sistema Capitalista Selvagem Ou Até Coisa Pior. É, talvez eu fosse coisa pior mesmo. Um dia eu falei para ela:
-E se Che Guevara for um Alien?
-Como assim?Aliens são seres criados por Hollywood.
-Você não acredita em vida fora da Terra?
-Não, eu sou materialista.
-Mas eu não falo em coisa espiritual, falo em algo alienígena.
-Mas nós, seres do terceiro mundo, não somos alienígenas aos olhos dos imperialistas?
-Saco hein Gretchen?
-Você sabia que essa expressa “saco” foi introduzido no Brasil através dos filmes americanos?
-Mesmo?E eu com isso?
-Você não deveria usar, seria melhor usar “vixi” ou “oxente” ou até mesmo o Bah dos Gaúchos.
-Mas o oxente nordestino não vem de Oll Ant?Ou seja, todas as Formigas?-inventei isso na hora, só para tirar um sarro, eheheehhe.
-Como?Nunca ouvi falar!
-É Sério.
-Bom, chega de papo, vou ali ler O Capital de Marx.
Mas antes disso eu a furei com a ponta de cigarro, porra, que mulé chata, esse papo deixa o pau de qualquer um mole. Por isso eu prefiro a minha Kétlin, que não tem esse negócio de Comunismo e outras milongas mais. O negócio de Kétlin é novela Mexicana e Big Brother. Ela até mandou uma fita para ver se entrava na casa, mais não passou. Eu produzi ela toda, a vesti com sua roupinha Sado-masô atuando com o macaquinho que eu tinha comprado para o realejo e mandei ela falar:
-Hey Bial, se eu entrar na casa vou dar a todos muita dor e amor.
É acho que o pessoal na globo não é adepto, mas assistindo a programação normal do canal eu pensava que o pessoal curtia o lance sei lá, acho que foram as mensagens subliminares que me fizeram pensar assim.
Daniel Barbosa - 11:51
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20.1.05
CAPÍTULO 11
(Marcio de Almeida Bueno)
Realmente os vizinhos eram uma tranqueira e tanto. No geral "vizinho" é um ser desagradável, sempre tive para mim o vizinho como uma pessoa chata que vai buscar frango com polenta aos domingos. Pior o que diz "com polentinha", aí só matando mesmo. De maneiras que minha vizinhança era uma cruz a carregar, mas o que é ruim pode ficar descer ainda mais na escala evolutiva dos condomínio, vizinhanças, fronteiras habitacionais e demais limites urbanos.
Pois de uma feita mudou-se para o apartamento de cima umas funkeiras, a imobiliária só deu aluguel por três meses, porque viu que era confusão na certa, fiquei sabendo nas fofocas de corredor. Estava eu certa noite entregando-me aos prazeres solitários da leitura, quando começou aquele batidão em cima da minha cabeça. A letra era um troço horrível, e o vocal parecia ser berrado através de um megafone. As moçoilas acompanhavam o pancadão pulando pelo apartamento, e eu ficava como o Pica-Pau naquele desenho em que ele estava hibernando, aí o Leôncio começa a usar a britadeira, e ele fica pulando sem controle. Era algo assim. Botei um chinelo e fui lá tirar satisfações.
Blim-blom. Blim-blom. Blim-blom-blim-bloooom.
- (voz abafada) Tem gente, tem gente! Atende!
Abriu a porta uma das moradoras, ou uma amiga das moradoras. Todo mundo de short e camiseta com nó no lado, sabe aquele esquema de pegar o canto da camiseta e dar um nózinho pra ficar 'tchans'? Pois era isso, aliado a um fumacê daqueles. Caixas pelos cantos.
- Boa noite, eu sou o vizinho do apartamento de baixo, quem é a responsável?
- Sou eu, paixão - disse a mais escrota das figuras, atirada em um puff no começo do corredor, sentada de pernas abertas, como se fosse um homem - mandaí.
- Não, é só que... tá meio tarde pra muito barulho, está incomodando - tentei fingir firmeza, mas eu estava de certa forma inibido frente àquelas mulheres selvagens, rotundas, facas-na-bota, pisando firme. Se uma delas fosse a Tati Quebra-Barraco, não me espantaria.
- Ah, você não gosta de funk é? - perguntou a mulher com cara de cofre
- ...Depende. Eu gosto de Motown - respondei, continuando o fingimento
- Aqui é só Dança da Motinha, mermão - uma falou, fazendo as outras rirem.
- Tudo bem, dá pra baixar um pouco o som?
- O boombox é meio ruim, se baixar muito não se ouve nada, sua foto tá no fundo da privada - disse a 'Tati', improvisando uma rima. O resto da sala caiu na gargalhada, e eu ali, de pé, de chinelo, com medo de um bando de mulheres, torcendo para o namorado de alguma delas não aparecer de repente.
- Olha, não quero confusão - falei, enquanto puxava a porta e saía de fininho.
Lá dentro, eu tomava a maior vaia. Desci as escadas, entrei no meu apartamento. Pensei em ligar para o síndico, mas eu nem sabia quem era o novo síndico. Talvez uma delas fosse vice-síndica! Não ia ser a vice-síndica mais bizarra que eu já vira na vida. Lá em cima, o tum-tchi-tum-pá continuava firme, muitas gargalhadas, uma garrafa se quebrando. Aquele era um dia atípico, eu estava pacífico e até inibido, a visão daquelas mulheres debochadas e bundudas ia me acompanhar até na hora de dormir. Tomei uma bola para pegar no sono, fechei bem os vidros e pronto. Abracei a Kétlyn e deixei a química fechar meus olhos. Três meses passam rapidinho.
marcio de almeida bueno - 23:26
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Capítulo 10
(Daniel Barbosa)
Isso, isso, isso. As coisas estavam entrando em ordens, sei que passei um tempo sumido, ok, mas tou de volta, não estou? Estava passando um tempo bem Homeless cuidando de minha Kétlin que ficou um pouco traumatizada (física e psicologicamente) com tudo aquilo que se passou nos últimos dias. Andei até levando ela ao psicólogo, mas ele me falou que ela não coopera, que ela é meio introvertida. Talvez seja mesmo, mas não na hora de “revirar os zóin” (como diz o mestre Ratinho).
Matei dois coelhos com uma caixa dágua só: arrumei um estágio de digitador e Buana buana, uma amigo meu de Porto de Galinhas me chamou para escrever um livro on line onde cada um escreve um capítulo por vez. Legal, chega de marasmo. Ele escreveu o primeiro, eu fiz o segundo e tal, a coisa estava andando, mas sempre tinha alguns babacas para dizer que havia alguns erros de português. Phoda, porque você não vai ler Machado de Assis? Karalho, sempre odiei esses protetores da língua, mó Pasquale.
Meu primeiro dia no estágio foi phoda: Seu Almeida me colocou num PC do tempo das cavernas com uma conexão horrível e pior de tudo, eu tinha que ficar o tempo todo com os pés encolhidos porque o CPU ficava embaixo do monitor, fiquei com uma dor feladaputa nos joelhos. Quando eu tentei arranjar uma posição legal, o chefe disse:
-ô rapa, assim vc vai estragar a máquina.
Grrrrrrrrrrr, feladapu.
Aí me passou um monte de textos dementes para digitar, uns poemas bem mongolóides de uns advogados amigos seus, cheios de erros de português, (bom parece que estou me contradizendo nés? Mas, porra, eram erros tipo “homem” escrito com “n” no final etc) e eu nem podia consertar (ou seria concertar?) porque os caras são “adevogados”. Então bola pra frente, numa sala quente pakas (o miseravi desliga o ar condicionado quando sai da sala, Tio Patinhas total). Digito tudo rapidinho e fico jogando tétris até encher o saco, Pensando na pele lisinha de Kétlin. Sete horas caí fora dali (só salvou o dia a amiga da filha do chefe que é mó gatinha e deu bola mas, droga, eu não consigo trair Kétlin). Aí tá, caí fora daquela escola técnica de merda, passei na banca comprei quadrinhos e fui para casa. Quando estava chegando tinha um monte de gente na porta do prédio, o vizinho cachaceiro estava espancando mais uma vez o irmão cego, que sempre estava com um gato na coleira (sério, pense aí, um gato conduzindo um cego). Perguntei para alguém e me disseram que tudo começou por causa de uma camisa do Vitória, que o cego estava procurando e o irmão tinha escondido , mas logo no dia de Ba-vi, aí o cego começou a xingar o irmão, pronto, o irmão pirou e começou a espancar o cego. Ela estava escondido no canto no playground do prédio parecendo Smigol de Senhor do Anéis saca? Porra, por falar em Senhor do Anéis, tenho lembranças lindas de quando li o livro, eu trabalhava pintando letreiros em muros para políticos o dia todo, e a noite chegava em casa todo fudido e eu ia ler o livro, isso durou um mês, o que é bom sempre acaba. Mas voltando a Família Alves (o apelido da família dos meus vizinhos), rapá, os caras são totalmente junkies, tem o cachaceiro que é pai de dois filhos, um é ladrão e o outro é freak, tem a cara todo queimando e é meio mongolóide, vive aprontando na rua jogando pedras nos outros, a mulher do cachaceiro também é freak, tipo aquele filme saca? que as pessoas tem as cabeças pequeninhas, eu acho que ela foi pega por alguma tribo de índios encolhedores de cabeças ou algo assim, e também tem a cara um pouco queimada, que segundo a lenda foi o pai que jogou água quente no filho e na mulher. Bom, completando a família tem o cego Do Gato na Coleira Louco Pelo Esporte Clube Vitória, tem a Mãe Que Só Vive Toda Arrumada Parecendo Que Vai Para Uma Festa e os amigos da família vivem vindo a casa fumar unzinho ou tomar umas. Teve um dia a noite que o cego se trancou no quarto com uma puta, a mãe estava sozinha em casa, e o cego com a puta numa casinha que fica ao fundo. A velha gritava:
-Roberto, que você ta fazendo aí Roberto?
-Nada mãe!
-Nada o que Roberto. Você tá com aquela puta de novo menino? Essa puta tem aids Roberto.
-Tou fazendo nada mãe.
Esse papo aos gritos durou horas, aí depois de um tempo a velha desceu até a casinha dos fundos, de salto alto, vestido de noite, toda arrumada, parecia uma daquelas bruxas que aparecem na Caras, tipo Hebe, sei lá, começou a bater na porta:
-Abra essa porta, Roberto!
-Eu tou deitado mãe!
-Tá nada, você ta é com aquela misera ruim!
-Tô não mãe, aqui só tem eu e o Gato.
-Abra a porta.
Depois de um tempo Roberto abriu. Ele estava com a misera ruim realmente. Ela começou a colocar a mulher para fora aos tapas, e Roberto de cabeça baixa alisando o Gato. Coitado de Roberto, ele precisa de uma Kétlin.
Quanto ao estágio durou até o dia que o chefe queria que eu ficasse até tardes da noite fazendo a merda do jornal dele. Ele ligou para a portaria da escola e pediu 3 hambúrgueres, um para mim outro para ele e outro para um cara que trabalhava lá também, mas como eu já estava puto da vida eu disse:
-Seu Almeida, tenho que ir, alguém me espera em casa, tenho que ir- e dizendo isso eu me piquei antes que ele pudesse falar algo. No outro dia ele me disse:
-Olha não tem muito serviço esses dias não, eu vou te pagar esse mês, e no próximo meus você aparece por aqui, tá?- eu:
-então tá então!
Quem disse que apareci lá? Minha pernas agradeceram.
Daniel Barbosa - 12:18
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3.1.05
Capítulo 9
(Marcio de Almeida Bueno)
Tudo bem que eu estava bem fora da casinha de tanta boleta pra levar uma boneca inflável ao restaurante, mas quem roubou ela deveria estar ou ser pior ainda. Quando algo assim desaparece, a sensação de desespero e solidão infinita, cósmica, é o que a gente costuma sentir. Lembro quando perdi a chave da gaveta que o meu pai usava para esconder - ou estocar - revistas pornográficas. Eu descobri a chave e passei a visitar a gaveta regularmente, tendo o cuidado de colocar a chave de volta exatamente no mesmo lugar que ele escondia. Até hoje lembro do que tinha naquela gaveta, aquelas tardes abafadas nos anos 80, ah... Um dia consegui perder a chave, não conseguia lembrar onde tinha deixado após chavear a gaveta XXX. E meu pai, pateta como era, nem deve ter se dado conta que a chave estava em outro lugar, e o resultado é que fiquei um bom tempo procurando inspiração nos livros de Biologia, desesperado!
O fato é que a Kétlin não estava mais junto comigo, e essa quebra do par perfeito me causava um estranhamento, uma náusea. Eu teria que procurar a criança, e uma caminhada dessas requeria estratégia. Ainda estava sentado na mesa do restaurante, dominado por esses pensamentos, tudo foi tão rápido. O pulha do garçom voltou novamente, com aquela cara de 'vejo que você obedeceu, finalmente'.
- Sobremesa? Um real a porção.
- Cadê a boneca?
- Creme, sagu ou gelatina diet.
- Eu perguntei sobre a boneca.
- Que boneca? Ah, eu... não vi, não vi mais - sorriu amarelo.
- Eu fui até o banheiro mijar e na volta ela não estava mais aqui. Seu restaurante costuma roubar dos fregueses é?
- O senhor está sendo deseducado. Se retire por gentileza.
- Ah, deseducado? - olhei para os lados, para me certificar que ninguém estava reparando no lance.
- Sim, deseducado - falou, imponente.
- Então tá - nisso, num só golpe, peguei o saleiro e joguei uma carga de sal nos olhos do infeliz, que berrou de dor, caindo no chão. Alguns fregueses olharam - e outros ignoraram, já que muita gente acha que para ser 'educado' não se deve olhar para os lados, em lugar público. - Eu falei que estava muito quente, amigo! - gritei mais alto ainda, cínico - Vamos no banheiro jogar uma água fria - levantei o sujeito, e consegui empurrá-lo até o banheiro. "Acho que nosso pedido vai demorar", ouvi alguém comentar com desdém.
No banheiro, dei um joelhaço no saco do garçom, o que tranquilizou e ao mesmo tempo o subjugou.
- Estamos mais calmos agora né? - perguntei, firme.
- Ufff... s-sim... - gaguejou ele.
- Vou perguntar e, a cada resposta errada, vou te causar um pouco de dor. Onde está a boneca?
- Eu não sei! - falou desesperado.
Eu não tive pena. Enfiei o polegar no olho dele, pressionando com força, ao mesmo tempo que apertava meu cotovelo contra sua boca, para não gritar. Deve ter doído pra cacete, pois o cara desmaiou. O olho se encheu de sangue, mas eu estava na adrenalina, e não estava nem aí. Há anos que queria descontar a raiva em alguém.
Ele ficou desmaiado, aí eu lembrei de um filme sobre a ditadura na Argentina, e coloquei ele debruçado sobre a privada, com a cabeça dentro do vaso. Puxei a descarga algumas vezes - a primeira deu até gosto, levando embora uma merda que parecia morar ali há dias - até que ele acordasse, engasgado.
- Gggasp! Bluerggh! - ele cuspiu a água suja, e vomitou.
- Cadê a boneca? - perguntei com a tensão controlada, como uma professora em frente a uma sala de aula turbulenta.
- Aaaahhh... No depósito, com os cozinheiros - respondeu, ainda de olhos fechados. O nariz sangrava.
- Vejo que você obedeceu, finalmente.
Cheguei no depósito do restaurante, nos fundos, depois de passar por vários corredores cheios de engradados de bebida, baldes brancos - daqueles industriais, que continham maionese, gente uniformizada correndo com bandeja na mão, e mulheres usando lenço na cabeça. Estava tudo escuro, uma luz fraca vindo de uma salinha me chamou a atenção. Cheguei perto e ouvi gemidos e respiração ofegante. Dois cozinheiros estavam traçando Kétlyn, dupla penetração anal. Com certeza vou me lembrar dessa cena no dia que estiver morrendo, delirando em uma cama de hospital, caindo de uma ponte ou de um vigésimo andar, rolando embaixo de um caminhão, sentindo o ferro quente de um tiro, ou o ferro frio de uma faca me lavando o bucho em sangue. Foi uma cena impressionante, sem dúvida. Rapidamente, peguei um garfo que estava no chão e avancei em direção aos dois homens. Golpeei com toda força nas costas do primeiro, que me olhou assustado, na fração de segundo antes de sentir dor. O segundo se desgrudou imediatamente da boneca, recuando em pânico. Ainda com o garfo na mão, senti minha superioridade. O cara estava pelado, apanhado em flagrante, vendo seu companheiro sangrar no chão de cimento daquele depósito.
- Deite no chão - gritei
- Calma, cara, você é da Polícia?! - ele arregalou os olhos
- Vai deitar a seco ou no sangue? - gritei mais alto. Tinha sido uma boa frase. Ele deitou rapidinho, de barriga para baixo, claro.
- Fica de olho fechado se não quiser morrer - avisei. O cara fechou os olhos com força, como se esperasse passar o temporal, o pesadelo. Nem pensei duas vezes - abri as nádegas dele, e dei uma garfada lá no meio, com toda a raiva do mundo. Nem sei onde acertei, saiu um jato de sangue sujo que me acertou o braço, o cara quase pulou até o teto, nisso o primeiro homem me deu um chute nas costas, eu caí em cima de uma mesa de buffet vazia, e ele saiu correndo. O segundo cozinheiro ainda se debatia, escorregando no próprio sangue e na própria merda, eu peguei a Kétlyn como o Tarzan agarra a Jane e saí correndo também, não atrás dele, mas fugindo de toda a situação. Passei pelos corredores, chutei alguns baldes, e atravessei o salão lotado de fregueses jantando. Antes de ganhar a rua, ouvi alguém dizer "o serviço aqui é muito bom, não acha querido?".
marcio de almeida bueno - 22:54
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21.12.04
Capítulo 8
(Daniel Barbosa)
Tudo bem, apesar de ter dado uma parte da grana para a caridade, ainda fiquei com algo, afinal ele nunca ia saber se eu dei tudo mesmo. Já tava cansado de ver Kétlyn naquela vidinha sem graça, lá deitada num colchão no chão vendo “pograma do Ratinho” toda a noite, resolvi levar a mina para passear. Ela ficou super feliz, deu para ver no rosto dela. Sério, eu sempre sabia o que ela estava sentindo, ela é de plástico, mas também é gente, tá? Tem tantas pessoas por aí que são mais artificiais que ela (eca, essa foi realmente terrível, parece que saiu de um livro de Paulo Coelho, sei lá). Aí ok, levei ela para comer uma pizza num Restaurant:
-Tá gostando, amor?
-Claro, adoro pizza.
Eu sempre sabia o que ela queria dizer, na verdade ela nem precisava falar, eu já lia todos os seus pensamentos. Coisas do Coração.
-Quer mostarda, amor?
-Claro, eu adoro mostarda.
Foi quando o babaca do garçom veio tirar onda:
-não pode ficar com a boneca aqui.
-Hein? Como assim, você vai logo assim chamando minha gata de boneca?
-er...Não pode ficar aqui com ela?
-Porque não?
-É...as cadeiras do restaurant são para as pessoas sentarem.
-Sim, por isso ela está sentada.
-Mas ela não é uma pessoa.
-Como assim?Tem pessoas por aí que são muito mais artificiais que ela. – me saí com essa de novo.
-Desculpe, você tem que se retirar.
-Tudo bem!!Posso ir ao banheiro antes?
-Claro!Mas ande rápido!
Levantei e caminhei em direção ao banheiro e ainda ouvi o garçom falar com Kétlyn:
-Desculpe madame, é que não aceitamos pessoas com tanta maquiagem nesse restaurant.
Volte 3 minutos depois e Kétlin não estava em seu lugar, procurei com os olhos por todos os cantos e não a vi.
Meu Deus , onde ela foi parar?
Daniel Barbosa - 23:43
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16.12.04
Capítulo 7
(Marcio de Almeida Bueno)
Acordar já foi mais fácil. Eu estava tendo problemas com meu sono, como se ir dormir fosse o castigo final de um dia puxado. E os últimos dias tinham sido difíceis. Primeiro, um idiota qualquer começou a passar trotes para o meu telefone, ligava várias vezes seguidas.
- Alô?
- ...
- Alô?
- ...
- Essa merda não está funcionando. Alô, porra!
- Sim...
- Ah, agora sim, pois não?
- Não é fácil...
- Como é? Isso é algum tipo de brincadeira?
- Tornar-se o que gostaria...
- Tomar o quê? Ah, vai à merda!
E eu batia o telefone na cara do sujeito. Ele que vá pastar.
Minutos depois, o cara ligava de novo.
- Alô?
- Saber-se jovem e belo...
- Ah, não, de novo não!
- Um olhar para as estrelas do íntimo...
Desligava direto. Chegou a tal ponto que eu não atendia mais o telefone. Já sabia que o peãozinho ia estar do outro lado, falando com voz melosa e pastoral umas frases meio proféticas, meio filosofia de livro de auto-ajuda, tudo com dois ovos por cima. Lembro de um professor no colégio que sempre iniciava a aula lendo em voz alta um livro de frases, escolhia uma maldita citação e lia com toda a cerimônia e postura, como se o futuro de nós alunos, pobres-diabos, estivesse agarrado ao cumprimento ou não do significado daquela frase. Eu geralmente nem escutava, mas lembro de uma que me marcou bastante, era algo do tipo "o homem que está de frente para um abismo tem atrás de si uma vontade". Nunca entendi o que significava, eu pensava que era o único que não entendia, então era o único que estava fudido na vida, inexoravelmente. Volta e meia eu pensava na frase, entre um cigarro e outro, tentando encaixar algo que minha mente havia aprendido, com aquela citação. Nunca deu certo, e tive vergonha de perguntar a alguém o que aquilo queria dizer.
De maneiras que o trote - no mínimo inusitado, me fez lembrar essa época de escola. Eu liguei então um plugue junto ao telefone, de forma que pudesse gravar todas as conversações telefônicas. Era só esperar o idiota ligar, já estava até atrasado!
- Alô! Alô! - atendi, eufórico
- ...
- Alô? O que vai ser hoje? - perguntei, enquanto acionava o REC do gravador
- ...
- Fala alguma coisa, porra!
- ...
- Era o que me faltava...
- Feliz é o homem sadio e só...
- Beleza, quero ouvir mais!
- ...
- Hm?
- Viver em fases...
E, pela primeira vez, eu desliguei na cara do sujeito. Ouvi a gravação, estava bem nítida, tão nítida quanto pode estar uma conversa no telefone registrada em fita cassete. Passei a gravar todos os trotes, compulsivamente. Depois de alguns dias, fiz umas montagens, e logo o produto final estava pronto, uma fita só com as frases 'profundas' proferidas pelo cara.
Acho que ele desconfiou da minha receptividade, e meu ânimo de ficar escutando aquelas bobagens, até que ficou uns dias sem ligar. Tudo bem, eu espero.
Até que, ontem à noite, ligou novamente. Eu mal podia esperar, havia colocado o plugue para tocar, então eu ia disparar a fita, para 'responder' às frases. O diálogo foi antológico:
- Alô?
- ...
Alô?
- ...
- ... - silenciei, também, só para dar o charme
- Morte da alma e da moral... - ele falou, e eu apertei o PLAY do cassete
- Nau que viaja na emoção... - 'respondi', com a gravação da voz dele
- ...
- Vamos, chefe! Guerra é guerra! - desafiei
- ... - o silêncio dele às vezes era sepulcral, como de uma madre superiora furiosa com uma das internas do convento
- ... - fiquei quieto também
- Daqui não se leva nada mesmo...
- Não sei porque estou aqui...
- Resta nada...
- Basta de dúvidas, agora...
- Só sobra o pensar...
- Falar é desabafar a alma...
- Contemple o Sol, contemple a Lua...
- Máscaras caem a todo instante...
- Acordar é buscar...
E seguiu assim por uns bons 10 minutos. Repeti a dose no dia seguinte, até que tive a idéia, brilhante idéia aliás, de gravar o resultado final. Quer dizer, eu arrumava outro gravador, plugava na entrada para gravar, ao mesmo tempo o outro tocava a fita, no final eu tinha um mini-estúdio funcionando junto ao telefone. E era divertido, eu lembrava o Pernalonga, que ao final de um desenho dizia "se não pode vencê-los, junte-se a eles", enquanto mordiscava uma cenoura. Eu queria levar o troço a fundo, minha guerra pessoal, iria até o momento que ouvisse o 'meu adversário' titubeando, descendo do salto alto de sua dicção e oratória, gaguejando, ou simplesmente pensando antes de falar a próxima frase. E ele mantinha-se firme, round após round.
Um dia, que começou como qualquer outro, eu escovei os dentes como em qualquer outro, foi o dia em que o Muhammad Ali do telefone lambeu a lona, foi muito mais que um beijo. Eu, que já estava com um excelente estoque de fitas - todo mundo me perguntava o que era aquilo, eu dizia que estava fazendo umas coletâneas para ouvir no walkmen - fiz a liturgia de sempre, com os gravadores e tudo mais, até que ele perdeu o fôlego, ou o rebolado, e demorou a responder a última frase.
- Hã... - ele bloqueou, fato inédito até então
- Ganhei! Ganhei!
- ...
- Ganhei ou não ganhei?
- ...
- Tudo bem, chefia, o jogo acabou, pode relaxar o esfíncter.
- Sim, ganhou você.
- Haha, você fala!
- Não foi o que eu fiz até agora?
- Fala normal, quero dizer. Mas isso não importa, já não tenho mais interesse no que você tem ou não a dizer.
- Entendo. Foi bom, até. Eu gostaria de
- Desculpe, não estou interessado. Basta, ok?
- Entendo sua posição. Adeus.
- Adeus.
Foi até um alívio, de certa forma. Os dias estavam mais tranquilos, e aquela pilha de fitas cassete me dava um certo ar de dever cumprido. Só faltava eu ganhar uma medalha.
Dias depois, lendo uma revista sobre os maiores vendedores de livros do país, tive uma idéia daquelas. Por que não transformar tudo aquilo em uma obra de auto-ajuda, pra tirar uma grana? O clima era aquele, uma picaretagem disfarçada de coisa séria, profundo. Bastaria transcrever todos os 'diálogos', bolar uma capa - e um título que atraísse os trouxas como a merda atrai as moscas, e então me dediquei à atividade, fervorosamente.
Depois de algumas semanas, o troço estava pronto. Batizei de 'Drops Diários Para Pensar e Viver', arrumei uma editora, e lancei o livro. Começou a fazer certo sucesso, tive sorte porque alguém elogiou a obra em uma matéria sobre 'sugestões de presente', então as vendas foram expressivas, até dei algumas entrevistas. E entrei no clima, claro, como se tudo aquilo eu realmente tivesse pensado e parido, escrito e tal. Um conhecido me sugeriu fazer uma sessão de autógrafos, coquetel, aquela palhaçada toda. A editora achou uma boa idéia, bancou os salgadinhas e tal. Apareceram vários amigos, muitos chatos, e, como diziam os Skrotinhos do Angeli, "homem com cara de babaca, mulher com cabeça de mosquito, e viado pra cacete"! Tudo bem, tudo aquilo era grana, então foda-se. Muitas velhinhas vieram, pediam que eu assinasse para o neto, ou para o filho, ou para o marido, ou para a vizinha. A mão estava até cansada de escrever mais ou menos as mesmas coisas, e meu nome. Pois no meio daquele povo, aparece um senhor bem velho, encurvado e tristonho, que me olhou como se eu o conhecesse! Eu o espiei na fila com o rabo do olho, eu já estava cansado e meio zonzo até, de tanto ser cumprimentado e tal. Na vez dele, se apresentou:
- Não se lembra de mim?
- Ahh... não.
- Você não mudou nada, desatento desde os tempos do colégio. Lembra agora?
- Não, eu na verdade...
- Fui seu professor na oitava série.
- Não acredito? Você era aquele que lia citações no começo de cada aula?
- Claro, por que acha que estou aqui? Sempre fui um fã de frases, e quando li sobre seu livro fiz questão de lhe prestar uma homenagem! Assine aqui pra mim!
Depois que assinei, já estava ali há horas, me despedi do meu ex-professor - que coincidência hein? - e pedi licença aos seguintes da fila para ir ao banheiro. Meu professor me puxou pelo braço:
- Também quero ir ao banheiro, mas não sei onde fica. Posso lhe acompanhar?
- Pode - concordei meio a contragosto, detesto ter que fazer sala para ex-conhecidos, ex-amigos, parentes distantes, essas coisas
Fomos ao banheiro, o evento acontecia numa casa antiga reformada, fomos achar o banheiro no segundo andar, totalmente vazio àquela hora. Entramos juntos. Parados lado-a-lado para mijar, em pé naquele negócio de metal que parece um buffet vazio - ô situaçãozinha constrangedora. O professor me olhou, e rapidamente puxou uma faca de cozinha do bolso do casaco, encostando - justamente! - no meu pau, que eu segurava para o xixi. Não fui capaz de dizer nada, nunca tinha sequer imaginado uma cena daquelas.
- Você ganhou dinheiro com o livro? - ele me interrogou, firme
- Como é que é? - eu perguntei, sem saber se continuava com o jato de urina, ou parava. Na dúvida, parei.
- Você ganhou dinheiro com a droga do livro?
- S-sim.
- Quanto?
- Não sei quanto de cabeça, mas deu pra pagar as contas. E assinar um contrato para outros volumes.
- Dê o resto do dinheiro para a caridade.
- C-como?
- Você é surdo ou burro? Dê o resto do dinheiro.
- Está bem.
- Vou estar de olho, não bobeie.
- Arrã.
Ele desencostou a faca de meu pênis, com mão surpreendentemente firme para um velho. Toda a cena era surpreendente, na verdade.
- Eu vou indo - ele disse - vou estar de olho.
- T-tá.
- E mais uma coisa - ele falou, com voz pausada e firme, recitando - "o jogo acabou, pode relaxar o esfíncter".
E saiu pela escada abaixo, me deixando com o pau ainda na mão.
marcio de almeida bueno - 11:17
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13.12.04
CAPÍTULO 6
(Daniel Barbosa)
Quando ia descendo as escadas uma voz surgiu ao meu lado:
-Volte, venha até a sala 666.
De onde vinha aquela voz? Sei lá, olhei para tudo quanto era lado e não vi ninguém. Aí que caiu a ficha: o diabo da voz vinha da Tatuagem. E falou de novo:
-Vem cordeirinho, suba até o 666.
Cordeirinho?Como assim?
Que mané cordeirinho que nada, eu fui foi dando no pé. E a voz falando:
-Vamos cordeirinho bom, suba até o 666.
Que merda, já tava dando no saco. Eu consegui andar uns dois quarteirões com aquele saco de voz falando, e por mais que eu apertasse o dedo contra a palma da mão a merda não mudava:
-Volte para o seu rebanho.
-Venha para a mamãe.
-Aqui é seu lugarzinho quente.
-Venha para os meio das pernas do seu ninho de amor fraternal.
Não aquentei, gritei no meio da rua:
-Mas que porra, será que vou ter que ir nessa droga de 666 para você parar de falar é?
-Não brigue com a mami.
Não aquentava mais, comecei a voltar e caminhar em direção ao 666. Talvez se eu fosse lá, sentasse, tomasse um café, fizesse um cafuné na cabeça da mami doidona, ela parasse de perturbar.
Ela vinha o caminho todo falando:
-Mami ama seus cordeirinhos.
Voltei e entrei na tão falada sala 666.
Estava escuro, atrás de uma mesa estava sentada a minha vizinha, a que tirou uma carta do realejo, e ela ainda parecia morta, só que pior, os olhos não estava nas órbitas. Os olhos estavam em suas mãos e ela ficava tipo fazendo malabarismos com eles, mas havia 3 olhos. Meu Deus, de quem era aquele outro olho? Ou era o olho do cu da doida?
-Voltou para a mami?
-Você é maluca é? Que demência de história de “mami” é essa?
-A mami só quer cuidar de seu bebê.
-Hein?
-Vem aqui, a mami quer tirar de você o que te faz mal. O que faz meu menino bom ver coisas feias. Mulheres nuas, mortes e mulheres com tatuagens na cintura. Nada disso, meu menino não pode ver essas coisas – E num é que a velha se levantou com uma faca enorme daquelas de tratar porco? Pense no medo que fiquei.
-Calma, dona...-esqueci o nome da velha – Calma. Eu te explico tudo.
-Não há nada a ser explicado. Eu já ouvi você assistindo filmes imorais.
Não sabia o que dizer, falei algo só para ganhar tempo:
-E essa tatuagem bonita, onde você conseguiu? – mostrando a minha tatoo no braço.
-Eu comprei pela tv. Não é linda?
-Realmente é muito linda. Você já viu a tatuagem que Hebe fez na virilha?
-Hebe? Não acredito. Na virilha?Meeeeeeeennnntira!!!!
-Sério!ela tatuou o rosto de Silvio Santos perto da periquita!
-Ô mentira!!!Passou em que canal?
-Na Globo, minha filha, passou foi na Globo!
-Na Glooooooooooooooobo????Mentira do cão!!!
-É sério, ligue a tv para ver se tá passando, pode passar a qualquer momento em edição extraordinária.
-Deixa eu ver.
Ela caminhou até a tv no quarto escuro e ligou o troço. Tinha um cara com um tapa-olho e uma mulher com tanto brilho na boca que mais parecia que alguém tinha acabo de ejacular em seus lábios. O cara disse:
-Ela não presta, é uma puta duma vadia do karalho!
-não tou dizendo, ele tá falando de Hebe.
-Meeeeeeeeeennnnnnntira!!!Sério?
-Preste atenção.
A velha ficou olhando com os olhos sem órbitas para a Tv, sentada no chão como uma criança, e segurando o cutelo sobre as pernas.
-Peraí que eu vou aqui na banca de revistas comprar o jornalzinho da tv, nele tem todas as notícias sobre a tatuagem de Hebe.
-Meeeeeeeeeeeeeennntira!!!!
A mulher só falava isso. Eu fui saindo devagar, na ponta dos pés. Quando já tava quase fora do prédio vi a velha grita:
-Meeeeeeeeennnnnnnntira!!!!Que tatuagem linda, mulher!!!!
Será que Hebe fez mesmo uma tatuagem perto da buceta?
Como eu soube que ela fez essa tatuagem se faz dias que não assisto tv? Será que virei algum tipo de vidente fofoqueiro? Ou sei lá, meu cérebro está recebendo mensagens subliminares da Tv? Porra, espero não virar um Leão Lobo da vida.
Daniel Barbosa - 22:47
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9.12.04
CAPÍTULO 5
(Marcio de Almeida Bueno)
Pois é, minha sorte poderia mudar. Achar algo, ou alguém, que desse rumo à minha vida. Uma boneca inflável não é exatamente um companhia para as horas que a gente está com o pé enfiado na merda. E eu nesses tempos estava chafurdando na matéria fecal, às vezes só dava para manter o nariz fora da 'água'. E a Kétlyn já estava meio gasta, e os orifícios de utilização noturna já estavam, digamos, cheios de 'queijinhos'. Não estão apresentados? Kétlyn, minha boneca inflável.
Eu já tentei arrumar dinheiro de todas as maneiras. Digo dinheiro porque parece ser, numa análise final, o que primeiramente iria me alavancar, e que no final das contas ia me dar algum conforto. Melhor estar melancólico à frente de uma lareira do que fudido e devendo o aluguel, sem perspectivas de pagar ou fugir. O fato é que já queimei o cérebro pensando modos de ganhar dinheiro, do tipo 'torneira de dinheiro'. Comprei um jornal, de certa feita, e passei a fuçar nos classificados. Achei um anúncio que dizia algo tipo "fique rico envelopando correspondências, trabalhe em casa e adquira sua independência, envie um cheque para o endereço...", sempre ouvira falar nesse tipo de atividade, achava que era lenda urbana, como a história da cobra na seção de alfaces do supermercado, crocodilos na tubulação de esgoto, e do diabo que aparecia para dançar num baile qualquer. Pensei bem, e cheguei à brilhante conclusão (como se alguém admitisse ter chegado a uma péssima conclusão) que devia dar uma chance à chance. Eu devia mandar um cheque para um endereço, mas eu nunca tinha dinheiro sobrando, o que dirá suficiente para dar para um banco tomar conta.
- Tio, posso tomar conta?
- Sim, mas cuidado aí hein? Esses 10 mil me custaram uma fortuna!
- Não se procupe, tenho garantia do Governo. Aceita um cafezinho? Quer dizer, depósitos abaixo de 15 mil não dão direito a cafezinho. O próximo da fila, por gentileza! Quem já foi atendido dá a vez, vamos colaborar.
Bancos eram mais ou menos assim.
Fui no cara da banca de revistas, eu era freguês habitual (como conseguia comprar as revistas é assunto para outro capítulo), tava com o valor do cheque no bolso, uma espécie de milagre, pedi pra trocar por um cheque.
- Você quer que eu troque um cheque seu de quanto mesmo?
- Não, eu lhe dou o dinheiro, você me dá um cheque!
- Peralá, isso é coisa de agiota, factoring, banking etc. Não posso dar um valor agora para você me pagar mais tarde, mesmo que tenha juros, e tal.
- Não chefe, o dinheiro está aqui - mostrei as notas, com a mesma firmeza que mostrei o pau para o médico no exame de alistamento militar, puxando a pele para trás - está vendo? Eu preciso é de um cheque, um pagamento que precisa ser feito em cheque, ficou claro agora?
- Olha, você é meu cliente, meio maluco mas é meu cliente, mas se tiver algo a ver com dívidas de jogo ou drogas, me inclui fora dessa.
- Não é não, você pode inclusive fazer o cheque nominal, deixa eu ver aqui... é 'Personal Marketing Direto Representações Ltda', a tal empresa.
- Tá bom, toma aqui o cheque e me dá o dinheiro. Nunca vi isso, mas tudo bem. Só segura uns dias que eu tô sem saldo tá?
- Tudo bem, ainda vai pelo correio. Chegou a Rudolf?
Mandei o cheque, conforme as instruções. Dez dias depois recebi uma carta me parabenizando por ter decidido mudar minha vida etc. Resumindo a palhaçada toda, eu deveria criar uma pirâmide da felicidade, aquela de mandar 1 real para três pessoas, e depois de uma semana receber 200 mil reais, e tal. Meu trabalho seria ficar envelopando as correspondências, porque se eu mandasse para cada vez mais pessoas, maior a minha chance de receber dinheiro fácil. Ok, mandei umas 100 cartas, deu um trabalho desgraçado lamber todos aqueles selos, e depois de uma semana eu recebi OITO REAIS. Pelas minhas contas, eu deveria estar perto dos dois milhões e meio. Mas o que recebi depois dessa fase inicial foram três cartas devolvidas, e não passou disso. Algo estava errado, e me senti um idiota. Pensei até em mandar suspender o cheque, mas nem era meu.
Resolvi tirar a história a limpo. O endereço para o qual eu enviara a grana era uma caixa postal, claro. Sigilo absoluto. Mas era da Agência Central dos Correios, era só eu ficar zanzando por perto que eu iria ver alguém indo buscar a correspondência. Fui até a tal agência, era bem movimentada, então eu não chamava a atenção. Preenchi envelopes, colei selos, fingi estar escrevendo longas cartas, tudo de olho na caixa postal número 4558, a bendita. Duas horas depois de beber água nos bebedores, pedir informação a diversos funcionários e ajudar uma velhinha que tinha esparramado suas coisas no chão, vi alguém abrindo a caixa 4558. Cheguei junto, como se estivesse procurando algum número, e vi a pessoa recolhendo dezenas de envelopes como o meu. Era uma mulher de cerca de 50 anos, cara de professora chata, cabelo preto tingido, realmente uma visão ingrata. Disfarcei, disfarcei (a arte de ficar observando o ridículo das outras pessoas, sem ser notado). Segui a velha fodida até seu 'escritório'. Fingi que procurava alguma sala específica para minhas necessidades - o prédio era decrépito, e haviam três 'casas de tolerância'. Às vezes, ouviam-se gritos e barulhos de portas batendo. A mulher entrou em uma empresa chamada Rolasul Rolamentos, umas letras bem velhas impressas no vidro da porta. Entrei logo atrás, ela estava guardando os envelopes na gaveta de uma escrivaninha bem velha, daquelas de madeira escura, que deveria ser sua mesa de trabalho. Tinha uma sineta no balcão, como nos hotéis de beira de estrada. Tlim-tliiim!
- Oi, pois não, veio pagar a pasta dos GF5?
- Hã... como?
- Não é o Moacir que te mandou vir aqui pegar as notas de empenho? Ah, achei que seria. Tosse-tosse. O que era para você então?
- Personal Marketing Direto Representações Ltda...
- Como?
- Personal Marketing Direto Representações Ltda - repeti, como se dissesse uma senha para o vigia de um quartel-general.
- Não é aqui não, fala com o zelador lá embaixo, porque andou mudando um pessoal novo para o sétimo andar e...
- Eu vi a senhora pegando as correspondências na caixa postal dos correios.
- Você estava me seguindo? Se é algum tipo de tarado, saiba que sou uma mulher séria e meu primo é Delegado!
- Eu mandei dinheiro para a sua caixa postal, e vi a senhora recebendo muitos envelopes como o meu!
- Aquela é a caixa postal da empresa e se o senhor não se retirar eu chamo a polícia! - ela gritou, e correu colocar a mão embaixo do tampo de uma das mesas, como se houvesse algum botão escondido para essas emergências.
- Calma, senhora, eu vou saindo, não quero confusão...
- Uma mulher na minha idade! Não tenho mais saúde para essas coisas! Tarado! Tarado! - ela estava se descontrolando.
Fechei a porta do escritório, antes que alguém ouvisse o barulho, pulei por cima do balcão e derrubei a mulher no chão. Não havia botão nenhum embaixo da mesa, claro. Conheço esses truques. A velha esperneava e tentava me morder, foi preciso uma bela porrada nas fuças para ela parar e organizar as idéias. Me assustei com minha própria violência, ela me olhava arregalada. Sussurrou:
- Tranque a porta.
Eu obedeci, automaticamente, em um pulo só. estava apavorado que aparecesse o zelador ou sei-lá-quem. Quando me virei, a velha tinha desabotoado a blusa, exibindo um sutiã bege bem encardido:
- Devagar, garotão, gosto de homens que me fazem saber onde é meu lugar... - a mulher me olhava de forma hipnotizante - Todos esses anos trabalhando neste prédio me fizeram saber do que os homens gostam... Ainda tenho meu fogo...
- Eu não quero nada, eu só queria o meu cheque de volta, pelamordedeus!
- Me explora, me bate na cara... eu sempre sonhei em deitar neste balcão... e tocar a sineta pra valer... - ela parecia anestesiada, e foi tirando a saia e subindo no balcão encardido, andando de quatro.
Toc! Toc!
Cristo! Alguém batia na porta! Me fudi de vez! A velha parecia estar em êxtase, olhou para a porta como se os desejos dela tivesse sido atendidos, e mais alguém entraria na festa. As batidas eram insistentes, numa fração de segundo eu imaginei o zelador entrando, tomando um susto, gritando por socorro, alguém chamava a polícia, eu descia as escadas correndo, o porteiro de uma das casas de massagens do prédio tentava me segurar, eu me desvencilhava e rolava um lance de escada, me erguia e voava até o térreo, chegando na porta alguém gritava "é esse o tarado!", dois policiais apareciam do meio da multidão, me imobilizavam, um camburão já estava me esperando, eu era jogado para dentro, as sirenes bombardeavam, eu no escuro, em pânico, chegando na delegacia mais próxima, imaginando já como seria minha curra pelos outros detentos, me sentindo a própria Kétlyn e...
Eis que a pessoa gira a maçaneta e a porta abre - tão velha que era a tranca já não fechava direito - e entra um adolescente, officeboy, de boné e pastinha preta na mão. Eu me joguei na porta, empurrando ele para fora com o corpo.
- O que você quer? - falei firme
- Eu.. a... o Moacir mandou eu pra... é Rolamentos aqui? Eu... - ele estava muito nervoso, sacou que tinha chegado na hora errada.
- Isso mesmo! Você está atrasado né moleque?
- Desculpa tio, eu fui no outro andar sem querer e...
- Foi ver as mulheres né? - ele ficou vermelho, mais do que já estava.
- Não tio, não fala nada não, tio! O Moacir é vizinho do meu pai, ele me manda embora! - o boy estava apavorado.
- Tudo bem, eu não falo! Você veio pegar os papéis né? Então entra aí dentro que a mulher vai te atender no balcão, tu entra aí e não sai sem os papéis dos GF5, que têm que ir pro banco ainda hoje tá moleque? Se ela não quiser carimbar pra ti na hora, insista! - empurrei ele para dentro, tirei a chave que estava na porta, ele já viu a velha deitada no balcão, tirando a meia-calça, fechei a porta, tranquei por fora e ainda gritei, enquanto descia as escadas correndo:
- Se precisar chamar o zelador, toque a sineta, com força!
marcio de almeida bueno - 11:53
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7.12.04
CAPÍTULO 4
(Daniel Barbosa)
Pense no tédio que eu tava, em casa, às nove da noite vendo o "pograma" do Ratinho. Phoda. E a tattoo não parava nunca de tocar. Pelo menos eu já sabia como mudar de música (basta apertar o dedo indicador contra a palma da mão) e também como passar músicas do computador para a tatuagem (enfio o dedo na entrada USB do computador e todas as músicas que estiverem no PC passam para meu corpo. Não me pergunte como). Mas já estava cheio de ouvir música também (para aumentar o volume é só apertar o polegar contra a palma da mão, para diminuir o mindinho). Nem mesmo dinheiro para um filminho pornô eu tinha (nem VHS, que é mais barato). Todas as revistas e livros na estante já tinham sido lidos várias vezes (A Metarmofose de Kafka: lido 5 vezes, Os Frutos Dourados do Sol de Bradbury: 4 vezes, e por aí vai). Quando fui buscar água na geladeira (a garrafa de água fazia par a uma pilha enferrujada) a idéia do realejo surgiu em minha mente. Tinha aquele lance da tattoo, aí eu colocava um macaco no realejo para tirar as cartas e dizia que o som vinha direto do cérebro do primata, ia ser maior marketing para divulgar meu produto. Só precisava de um macaquinho treinado, algumas cartas, um realejo e uma mesa velha. As cartas eu mesmo fiz , tirando os textos de um site que achei na net. A mesa seria a da cozinha de meu apartamento. O macaquinho treinado eu troquei pelos vinis Racional 1 e 2 de Tim Maia. E o realejo eu roubei de um moleque na rua. Eu sempre via ele brincando com o realejo quando vinha do trabalho, mas acho que ele era meio mongolóide, acho que imaginava que o troço era casinha para seus bonecos, ou coisa assim. Como ele não utilizava o produto direito, não fiquei com culpa por ter roubado o brinquedo de uma criança. Eu sei, minha mãe sempre dizia que "papai do céu sempre está te vendo fazer coisas feias", mas ok, sempre soube que tudo não passa de um imenso Big Brother. E afinal, não sou católico mesmo. Na verdade eu não sou porra nenhuma. O que não deixa de ser alguma coisa, né?
Aí peguei os troços e levei tudo para a frente do meu prédio. O macaquinho não parava quieto, às vezes queria ir embora, ficava esticando a corda que amarrei ele a mesa. Eu o estava alimentando com Fandangos, ele adorava o troço. Depois de uns 20 minutos surgiu um velha que mora no mesmo andar que o meu e perguntou:
- Tá vendendo o que aí?
- É um realejo.
- E esse negócio de realejo também toca música é?
- Não. A música vem da mente do macaco. Ele pensa em alguma música que já ouviu antes, e ela toca.
- Hé, hé, que mentira. Macaco que toca música, ô mentira.
- Sério. Esse macaco eu peguei numa viagem à Jamaica. Chegue perto e veja se o som não vem dele.
Ela chegou perto e eu também, com o braço bem próximo do ouvido dela.
- Pior que parece que o som sai dele mesmo. Então faz o seguinte, pede para ele tocar outra música.
- Ele vai tocar agora 'Leãozinho' de Caetano Veloso.
Como eu já tinha ouvido as músicas dias e dias sem parar, eu já sabia a ordem de todas. Foi só apertar o indicador na palma da mão, e começou a tocar. A velha fez cara de surpresa:
- E não é que mudou mesmo?
- Ele também sabe tira uma carta com a sua sorte do dia. Ele sempre acerta.
- Como assim ele sempre acerta? Não sei porque um macaco feio desses saberia minha sorte!
- Mas você não sabia que o homem veio do macaco?
Não sei porque eu disse isso, inventei na hora. Ela parou, pensou e disse:
- Ah, explique. Aí sim! Quanto é?
- Dez reais.
- Carinho hein? Mas tudo bem, estou de bom humor hoje! Quer ver? Vai bichano, tira a minha sorte.
"Bichano é para gatos, sua véia burra", pensei. O macaco ficou tipo tirando lasquinha de minha mesa e nada. A velha olhava para ele e depois para mim. Bateu com o pé no chão, bateu palmas: nada. Eu peguei um Fandangos do saco e coloquei sobre as cartas que tinha feito, o macaco pegou o salgadinho e comeu. Depois ficou fuçando nas cartas, levantou uma no ar como um nazista saudando Hitler e começou a gritar mostrando os dentes. Eu peguei da mão dele e li com voz de Cid Moreira naquela narração da Bíblia:
- "Vive tranqüila, pois alcançarás fortuna nas tuas empresas. Terás sorte com o número 094".
Viagem pura. Tirei isso de um site. ah, eu já disse isso. A velha ficou toda feliz e disse:
- Vou jogar esse número no bicho!!!
- Jogue mesmo, é capaz de ganhar.
- Obrigado rapazinho, você é um amor! - e me pegou pela camisa e deu um beijo gorduroso no meu rosto. Phoda. Que nojo. Ela tinha um hálito podre. Mais muito podre mesmo, parecia que tava morta, ou até pior que isso.
Foi embora. Fiquei só. Falei:
- Vai macaquinho babaca, tira minha sorte.
E não é que o sacana tirou mesmo:
- "Não sejas ciumento, se quiseres ser feliz. Já foste muito enganado por antigas namoradas".
Só se foi a minha boneca inflável, que é minha namorada desde os 13 anos de idade. A música que estava tocando acaba, e entra 'Labirintos Negros' de Sergio Sampaio. Phoda.
Daniel Barbosa - 18:27
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1.12.04
CAPÍTULO 3
(Marcio de Almeida Bueno)
Bem, capitalizar é o lance. Uma tattoo que toca música, ou acho que toca. ACHO que tenho a tal tatuagem, também. Mas tchudjo bem, tenho mais coisas para me preocupar, até porque já tive alguns flashbacks no passado, coisas reais que parecem reais mas que não são reais, diacho! Cores líquidas que resolvem flutuar em minha frente na hora de dormir, zumbidos persistentes, cheiros que dá para sentir o gosto, cores que têm peso, psicodelias assim. Uma vez eu tava na casa de um amigo, o assoalho era de madeira, pareceu de repente que a água fervente de uma chaleira caía em cima de minha perna. Eu dei um puta pulo, as prateleiras da casa tremeram, cheias de copos e travessas, o chão não era muito firme. Como diz a música do Defalla, "flashback, flashback / putz / agora sim bateu". Ou algo assim.
Então história de pele pintada que toca música parece nova invenção de japonês. Aliás eu sempre vejo notícias do tipo "japoneses inventam chip que substitui o olho", "cientistas japoneses descobrem o gene que causa o pau pequeno", mas nunca vi essas invenções na vida real, elas nunca chegaram até aqui. Parece que os caras produzem apenas, e tão somente, para as revistas científicas e para a seção de ciência & tecnologia do site da BBC, que todo mundo copia. Pelo menos no mundo que EU frequento essas coisas nunca chegaram, só mesmo o cd e a pomadinha japonesa, ou chinesa. Quer dizer, ACHO que a pomadinha japonesa é invenção dos japas, e confesso que não sei para que serve. Ou será peidinho chinês? Lembro dos anúncios em revistinhas de sacanagem, aqueles dizendo "conquiste a mulher dos seus sonhos", o Procon da época não atingia as revistas pornô. Tive sempre uma curiosidade extrema, poder encomendar todos aqueles produtos, bomba para aumentar o pênis - uau!, perfume canino que atrai as mulheres, camisinha com sabor, sunga com zíper na frente e atrás - epa!, boneca inflável - "a adorável Soninha, a mulata" e tal. Acho que se ganhasse na mega-sena eu iria mandar buscar todas essas coisas, pra começo de conversa. Inclusive o anúncio da Soninha apresentava as vantagens da mulher inflável, "não enche o saco, não passa doença, não pede dinheiro, não fica um bucho". Eu ficava imaginando o cara chegando em casa, 'usando' a revista na cama, e aí pensando nas vantagens oferecidas, uma mulher que não pede dinheiro, não enche o saco. Lembro de um prolongador do pênis, uma espécie de continuação feita de silicone que o cara encaixava na ponta, aí ficava com uns bons 10 centímetros a mais, o que para um pré-adolescente como eu se constituia em uma meta de vida. O mais bizarro era uma camisinha - reutilizável - para a língua, o cara encaixava um troço de borracha na língua, cheio de saliências, e prendia as hastes nas orelhas - é sério, não se brinca com essas coisas. A mulher que conseguisse segurar o riso, fingindo que o homem não estava ridículo, devia alcançar os píncaros do prazer. Depois do uso, dava para lavar e usar novamente.
Andar de ônibus era legal, até. Observar as pessoas, e havia uma pessoa em especial que eu procurava, era a pessoa desconfortável consigo mesma. Se arrumando a roupa o tempo tudo, absurdamente encabulada, com incríveis tiques cada vez que, digamos, precisasse dar lugar ou passar na roleta. Se alguém perguntasse as horas, a pessoa respondia, assustada, e depois ficava espiando o interlocutor com o rabo do olho. Disfarçando, disfarçando. Tem uns que olham para todo mundo cada vez que entram no coletivo, só de nervoso, como que para se certificar da presença dos outros passageiros. "Você está me vendo, eu estou vendo você, certinho então, ok, positivo". Tem os que comem disfarçando, como se ninguém visse que a pessoa está pegando bolachinhas recheadas da sacola - humm, que delícia - , e como se alguém estivesse preocupado com isso, alguém fazendo um lanche três bancos à frente, em um ônibus lotado. Indiferença, eis a chave. Uns comem como se estivesse em transmissão ao vivo, em frente às câmeras da tv, a audiência bombando, querendo mostrar 'educação', como se comer educadamente fosse mastigar com receio, engolindo rápido, quase pedindo desculpas. Tem gente que merece uma sacudida para perder as paranóias.
Desci do 'ôins' duas paradas antes, só para caminhar um pouco, e passar numa banca de revistas que freqüento, nem que seja só para olhar a capa das importadas. Os preços são indecentes, muitas vezes, e meu saldo no bolso da calça idem. Tenho saudade dos pacotes de figurinhas, a gente ia a bancas longínquas para pegar lotes diferentes, porque no mesmo local os cromos eram mais ou menos os mesmos, sempre repetidos. Tinha de jogador de futebol, super-herói, Thundercats, autocolantes etc, e havia uns álbuns bagaceiros também, sem nenhuma identificação, que eram vendidos só em bares suspeitos, e que davam prêmios altos. Você completava a figura da panela de pressão, ganhava uma panela de pressão, completava a motocicleta, ganhava uma motocicleta. Não havia nenhum endereço para ir buscar os prêmios, e ainda havia a lenda que o dono da bodega tal pagava mil reais por alguma figurinha que faltava para fechar o álbum - o que nos leva a outra lenda, de que os prêmios só poderiam ser retirados se a gente completasse todo o álbum. Nunca soube de alguém que tenha ganho alguma coisa que valesse a pena. Uma espécie de Carnê do Baú que não deu certo. Eu seguia com minhas figurinhas repetidas.
marcio de almeida bueno - 21:36
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30.11.04
CAPÍTULO 2
(Daniel Barbosa)
Já eram umas 3 da tarde quando eu resolvi largar um pouco o trampo e ir tomar um cafezinho. Comecei a ouvir uma canção estranha. Algo meio mantra, com um fundo trip hop, e só repetia a frase "Mais vale um passarinho na mão do que dois no ânus". Porra, de onde vinha esse som? Troço louco, aí notei que o som vinha de perto, ou melhor ainda, o som vinha de meu corpo mesmo. Ahn, como? Pior, a porra do mantra hippie electro vinha de minha tatuagem. Sério, o som saída direto daquelas linhas. Devia ser algum tipo de tinta nova no mercado, sei lá. Algo como "compre a nova tinta musical, vc pode pintar e ouvir sua canção predileta ao mesmo tempo". Cool não?
Agora só preciso saber como mexer no dial para mudar de música, sei lá, colocar uns mp3 do Sonic Youth. Eu faria sucesso com a mulherada, tipo "o cara que já vem que trilha sonora", Descolar umas canções do Barry White. Ou até mesmo descolar uma graninha como trio ambulante. Ou até mesmo animar umas festas tecno como Dj Body Musik.
Daniel Barbosa - 23:07
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CAPÍTULO 1
(Marcio de Almeida Bueno)
Acordei de sobressalto. Faz dias que não durmo bem, sonhos confusos e opressores, o travesseiro cada vez mais quente, e o ar do quarto, abafado. Fui dar aquela mijada básica, caminhando zum-zum até o banheiro, os demônios do meu sonho parecem fazer parte do ar, uma fumaça cinza ao redor de tudo, é só ignorar e eles vão embora. Olá pau, que bom que você nunca me abandonou. Ahhhh... que alívio. Uma boa mijada pode ser até melhor que uma ejaculada mediana, basta pensar em algo bom. Gosto de mijar mirando no desinfetante, naquele tijolinho cor-de-rosa ou azul que fica pendurado dentro do vaso. O mijo quente faz ferver o produto, sai uma espuma grossa do desinfetante. Aliás eu sempre pensei sobre a utilidade desses desinfetantes, porque quando a gente puxa a descarga desce tudo, inclusive o perfume e tal. O fato é que estava mijando, de madrugada, em meio ao sono e sonho.
Epa! Quêisso no meu braço, caceta? Uma tatuagem? Não fui dormir tatuado, tenho pavor de agulha, desmaio só de "ir no fundo de uma farmácia", atrás das cortininhas brancas. Mas havia uma suposta tatuagem, como diria um advogado, no meu antebraço esquerdo. Uma bola com uma 'órbita' ao redor, como os anéis de Saturno, um desenho bem simples. Parecia um planeta com a trajetória de um satélite ao seu redor. Não é o desenho que eu escolheria para uma tattoo, se tivesse que fazer, à força. Mas tudo bem, tudo bom, deve fazer parte do sonho e do zum-zum. Ah, que mijada gostosa...
Voltei pra cama flutuando, dei uma espiadinha na janela, sempre tive medo de ver alguém antes do amanhecer, parecia que só um fantasma estaria circulando àquela hora, e a basculante do banheiro dava para o fundo de uma padaria, eu ficava fascinado / aterrorizado de olhar para fora, sob aquela luz estranha que antecede o nascente, uma espécie de lusco-fusco invertido, brrr!!! Deitei tranquilo, nenhuma alma sacudindo correntes, vindo me pegar etc... zzzzzzzz.
Dormi bem, aquela espreguiçada básica, hora de ligar o rádio para começar o dia com música, seja ela qual for. Claro, queria que muita coisa tocasse no rádio, mas não toca. Apesar da infinitude de uma discoteca, se pensarmos em termos universais, mp3 e tudo mais, os programadores se limitam geralmente aos "sucessos que todo mundo ouve" e flashback, troços que já foram "sucessos que todo mundo ouve". Aliás os anos 80 foram pródigos em produzir futuros flashbacks, canções até então nojentas, mas que ganharam charme 20 ou 25 anos depois. Muitas tranqueiras viraram cult. O fato é que liguei o rádio numa estação flashback. A música que tocava me lembrava da minha infância, o que era bom, pois eu estava BEM longe da minha infância. Du-bi-dubi-du-bi-dabi-dubi....
Gosto de me vestir no estilo bombeiro, quer dizer, pulo para dentro das roupas, que são sempre as mesmas, e saio correndo para a vida. Tenho pavor de ficar na frente do espelho provando calça e tal. Arre! E o melhor é não ter que escolher o 'traje', escolho uma vez só, ao comprar, e depois compro outros repetidos, e pronto. Jeans, tênis e camiseta preta. Ok, uma preocupação a menos, e o bombeiro-padrão saía de casa. Olá para os vizinhos, um tchauzinho para a simpática velhinha que não sei ao menos o nome. Ela saberá o meu nome? Nada que mude algo, vamos combinar.
No ônibus, lembrei da história da tatuagem e, como em todas as histórias de filmes, ela estava realmente lá. Passei os dedos em seu contorno, ainda estava um pouco saliente, os traços em relevo, um inchaço normal nesses casos. Não me espantei, até porque na minha vida as coisas geralmente acontecem em descargas de pontapés. Alguém deve ter botado boleta na minha Coca-cola e depois me levado dopado a um estúdio qualquer, só pode ter sido isso. Algum palhaço que achou a piada muito engraçada, sabendo que eu tenho pavor de agulhas, picadas, insetos, dentista, anestesias, crianças que choram, crianças que não choram, crianças que comem balas e doces o tempo todo, entre outros itens. Pues fiquei mais intrigado é com o desenho, com sua estranha simplicidade. Geralmente as tatuagens são clichês, como todos os gostos do cidadão médio. Dragão, tribal, índio, mulher, olho, abstrato. Mas o meu parece tirado de um livro escolar de Geografia. É em Geografia que se aprende Sistema Solar, Via-Láctea, telescópio Hubble, essas coisas né? Deveria ser História, porque eu li esses dias que as estrelas que a gente vê na verdade já implodiram há milhões de anos, mas ficam tão longe que demora tanto tempo para a luz chegar até aqui, que só daqui a outros milhões de anos o último raio luminoso vai cessar. Quer dizer, já morreu mas tá tão longe que a gente ainda vê a criança de pé, brilhando. Talvez o próprio Sol já tenha se apagado, e a gente ainda não sabe. Ou deu algum pau cósmico, que só o Stephen Hawking, ou o Stephen King, saberia explicar. Mas do que eu estava falando mesmo?
